A minha mãe revolta-se quando se diz que as pessoas estão em crise que não têm que comer. Engane-se quem pensa que é pela fome, que não é. Ela diz que nunca se viveu tão bem como agora, que a pessoas têm tudo e não sabem o que é prioritário e o que é secundário. Acusa as pessoas de falta de esforço e vontade em viver de forma humilde. Diz que, as pessoas têm um quintal (vive-se numa aldeia) para ter couves e cenouras, e até uma galinha ou duas, mas não estão para se chatear.
Revolta-se porque trabalhou toda a vida, sol a sol, enquanto os que foram cigarra viveram de forma faustosa, que agora se queixam, e antes troçavam. Amealhou todos os tostões que podia e nunca passámos fome. Esmerou-se por isso, vivemos humildemente e sabe Deus os sacríficios que fez.
Já ofereceu alimentos a pessoas que recusaram aceitar, preferindo dinheiro. Isto tem aunmentado a sua revolta.
Ela continua a dizer que há muito terreno para cavar e se a crise é tanta, ainda não viu ninguém que se queixa, agarrar numa enxada e começar a trabalhar para comer.
Conto isto, porque acabou de acontecer uma situação na empresa que, se calhar, lhe vem dar um pouco de razão.
Precisamos de pessoas para trabalhar na produção. O trabalho não é dos mais limpos, mas faz-se. Pagam acima do salário mínimo, se é que isso tem importância agora.O ambiente tem algum pó a circular. Foi pedido esta manhã a uma agência de trabalho que mandasse candidatos. O candidato chegou há pouco e a entrevista durou cerca de três minutos, nem sei se tanto.
Quando lhe começou a ser explicado o trabalho, ele pediu a palavra e disse não estar interessado. A sua justificação: tem olhos claros e pele clara, por isso não pode trabalhar com pó. Insólito isto. Precisa de emprego! Não fosse a justificação dele, eu diria que ele andava a snifar um pó qualquer que lhe estava a atingir o cérebro.
Há coisas que não se justificam; aqui não se trata sequer de um problema de gastos. poderia vir de bicicleta, já que mora a cerca de quilómetro e meio da empresa. Tem de se começar por algum lado, mesmo que não se goste.
Ainda esta semana, tive dois clientes a queixarem-se que querem pessoas para trabalhar e que lhes aparece muita gente. Mas que não querem trabalhar. Se lhes põe a hipótese de trabalhar ao sábado de manhã, num trabalho de escritório e sendo-lhes pago esse tempo, não querem!
Ainda esta semana, tive dois clientes a queixarem-se que querem pessoas para trabalhar e que lhes aparece muita gente. Mas que não querem trabalhar. Se lhes põe a hipótese de trabalhar ao sábado de manhã, num trabalho de escritório e sendo-lhes pago esse tempo, não querem!
Isto leva-me a começar pensar como a minha mãe. As pessoas não arranjam soluções para as suas próprias vidas, muitas vezes porque não querem. Sei que não se podem fazer generalizações.
Custa-me muito ver gente passar fome, mas começo a ficar apreensiva em dar a quem está sempre de mão estendida. Eu sou uma das pessoas, tal como os meus pais, que não somos responsáveis pela crise, e estamos a pagá-la, sem piar. Reajustamos a nossa vida. Nunca ganhámos cinco para gastar dez. Gastámos dois para poupar três.
É capaz de haver alguém que se aborreça com o que disse, mas não posso deixar de ser genuína, só para agradar.
e eu que nem sou de falar das coisas que já fiz aos outras, porque as acções ficam para nós, nunca neguei comida a ninguém e já me prestei a colocar comida na dispensa de alguma pessoas. e não me arrependo.