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a minha querida Dionísia

Levo a mão à barriga de uma forma inusitada. Nem sei se ainda há vida cá dentro. Murmuro um "espero que sim, deixemos correr os dias". Beberico o chá de cidreira que já não me sabe aos tempos do antigamente. Recordo-me da mulher que conheci sempre velhinha, que via em mim "o mau olhado que os outros me botavam". Curava-me as maleitas provocadas pela inveja dos outros, com gordura de galinha untada sobre a barriga, Eu, dormia depois,  horas a fio, embrulada em papel pardo e a boa disposição voltava. Curava constipações com dentes de alho. E quando alguém perdia alguma coisa, ouvia-a rezar o responso a Santo António que nunca aprendi. Talvez porque ela nunca me ensinou.
Lembrei-me da sua plantação de erva cidreira por baixo da sua minúscula janela do quarto. Cheirava tão bem que nem as abelhas lhe resistiam. Raramente me deixava beber o chá verde; lembro-me de secar a erva com a rama virada para baixo, na lareira da cozinha. Depois colacava-a em sacas de pano, feitas de retalho coloridas, de ramagens miudinhas, ou às riscas. Uma espécie de patchwork. Quando alguém tinha problemas digestivos era o recomendado. Havia os pés de cereja e as barbas de milho catalogados numa mente que não sabia escrever.
Nesta altura existiam as nozes da nogueira que caiam vergastadas pelo vento. Secava-as na soleira da porta da sala. Lembro-me do soalho tão vermelho da cera aplicada por alturas da Quaresma.
Há muitos anos que não me lembrava da tia Dionísia como me lembrei hoje. Era a mãe de toda a gente sem nunca ter trazido ninguém na barriga. Adorava-a e lembro-me de ter chorado tanto, quando partiu para a Guarda, para casa de uma sobrinha com um nome-estranho-que-agora-não-me-lembro. Esta talvez tenha sido a minha primeira grande perda.

O melhor é acabar o meu chá de cidreira que entretanto arrefeceu enquanto escrevi estas linhas.
Há dias que a memória vai buscar coisas há muito esquecidas.

Comentários

  1. Querida Alice, mas são recordações tão doces... bebe o teu chá de cidreira. :)

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  2. Turista,

    É o chá favorito, talvez por influências sentidas na infância.

    Beijoca e boa semana

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  3. Leva a mão à barriga e sente. É um principio. Fala com ela e ouve-a. É um começo. Bebe o chá como quem bebe a esperança que aquece o corpo e a alma.

    Por aqui, se precisares.

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  4. Nem imaginas o quanto adorei estas linhas...

    ResponderEliminar
  5. 2linhas,

    Levo a mão à barriga sem pensar. Depois dou conta que o faço. ainda não se sente nada lá, mas sinto tanta coisa no meu coração. O querer muito. E falo tanto com ela, mas tenho também o medo que já não me ouça. podem achar que estou a enlouquecer mas eu estou só a amar o que desejo tanto.

    e mais uma vez, obrigada pela tua disponibilidade

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  6. Dina,

    Fico contente que algumas das minhas melhores (e mais felizes)memórias de infância também toquem alguém.
    Nem sempre nos lembramos delas, mas elas existem.

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