Avançar para o conteúdo principal

Muro das lamentações

Voltou aquela vontade imensa de não ir trabalhar. Voltou a vontade de desistir dos meus projectos pessoais por ter barrado contra uma parede alta e dura (das mais difíceis que vou ter de trepar). Voltou a vontade de partir tudo [está cá pequenina, mas sei que cresce a cada momento]. Voltou a vontade de fugir e de me esconder onde não me encontrem.
Após quatro meses de sentir que, finalmente, tinha estabilizado; depois de quase dois anos a tirar obstáculos do caminho, a vida volta a dar uma volta, que muda tudo, ou quase. O salário não muda; as chatices são redobradas, o trabalho também, a paciência vai esgotar-se mais rapidamente, o mau humor voltará, o riso diminuirá. Certamente os cabelos brancos e as rugas triplicarão. Há pessoas com as quais eu não consigo trabalhar porque não têm aquilo que eu acho essencial: cumplicidade, proactividade, boa vontade, celeridade nos assuntos, compreensão, eficiência e eficácia. Se passava um terço do meu dia a trabalhar com elas, agora passarei o dia inteiro. Eu sofro de intolerância a este tipo de pessoas. Lamento.
Também estou de coração partido. Porque quem eu julgava que os outros eram, não são. As pessoas a quem estive ligada para mais de cinco anos não passam de farsas. Que o sentimento de estima e amizade, afinal, nunca foi reciproco. Cresceu a descrença nos outros, a desconfiança nas atitudes, diminuiu a vontade de dar e de estar, de ser e de ajudar, o desinteresse instala-se.

Talvez porque tudo em que sempre acreditei, os valores e os princípios, desmoronaram. Duas ou três grandes pedras já tinham caído. Esta semana, tudo o resto se soltou e a derrocada fez-me ferida,  sobrevivente.

E depois deste desabafo, estou pronta para ir trabalhar e a vontade não aparece. Amanhã será melhor. prometo não me queixar. Mas hoje precisei muito fazê-lo.

Comentários

  1. É muito bom quando temos um bom ambiente de trabalho, mas até dá vontade de voltar para trás só de pensar que vamos passar um dia de... (aqui eu dizia uma asneira).

    As pessoas não são aquilo que aparentam, apresentam-nos fachadas que não existem. A descrença nelas, e no ser humano, aumenta.

    Mas são dias Alice, dias em que não nos parece que tenhamos capacidades para lidar com isso, mas temos... Temos sim, e ainda damos a volta por cima.

    E é isso que vais fazer, por a tua melhor cara e mostrar a grande Mulher que está aí dentro não indo abaixo, mostrando a garra e a força que existe dentro de ti.

    beijinho

    P.s. Hoje estiquei-me a escrever :)

    ResponderEliminar
  2. S.o.l,

    Eu sei que são dias mas eu gostava que as pessoas que lêem este texto estivessem a assistir do pagode que é isto, com a pessoa que tenho de lidar agora. E ainda por cima é um queixinhas sem razão.

    às vezes, preciso desabafar e acabo por escrever estas coisas. Não as apago porque afinal não sõ apenas sonhos cor de rosa.

    Mas estou muito desiludida com as pessoas que afinal são máscaras que de vez em quando se decuidam e as deixam cair.


    PS - Também gosto da tua escrita reduzida, não te preocupes. Tipo duas linhas :)

    Beijinho

    ResponderEliminar
  3. Oh minha querida, lamento que sintas todas as tuas estruturas a cair. Mas não será mesmo a vida a pôr à prova as mudanças interiores em que tens trabalhado? Pensa nisso.
    Quanto às pessoas, dou por mim a repetir qual mantra que nunca mais confiarei a 100%, mas depressa vai o mantra por água abaixo quando certas pessoas conseguem conquistar facilmente essa confiança, para depois com a mesma facilidade a quebrar. Sei que é lugar comum, mas olha, o que não nos mata torna-nos mais fortes, e momentos destes de desabafos e lamentações são precisos, porque sais deles mais leve, de cabeça erguida e uma força de enfrentar o touro pelos chifres.
    Muita força, e paciência.
    Bjinhos

    ResponderEliminar
  4. Raiozinho,

    As lamentações ficaram para trás. Segui em frente, muni-me de uma grande paciência, inspirei e expirei e o dia chegou ao fim. Vão haver mais assim, mas um dia de cada vez.

    Quanto ao resto, acho que há pessoas que não merecem mais atenção do que a que já lhes foi dada com a nossa consideração. Segue-se m frente. Há coisas que nunca consideraremos ser por não fazerem parte de nós. Vamos sofrer outra vez, mas que fazer?

    Obrigada pelas tuas palavras queridas.

    Beijinho grande!

    ResponderEliminar
  5. Alice,
    já me senti assim. Já me desiludi assim e já estive quase a bater no fundo. Ou deixava-me ir, ou batia os pés para não me afogar e foi o que fiz. Tento todos os dias tirar partido daquilo que me dá realmente prazer, ver blogues que gosto é um deles. Limito-me a fazer o meu trabalho o melhor que sei, sem dar confiança. Acabaram-se os almoços com o pessoal do trabalho, já me bastam as 8h que aqui passo. Depois dedico alguns momentos ao que gosto e fora daqui tento fazer mais coisas que me preencham, isto enquanto necessitar deste trabalho e não conseguir nada melhor.

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Tens alguma coisa para dizer? Obrigada por partilhares! ;)

Mensagens populares deste blogue

Jardim de Chuva Prateada

hoje em dia, as pessoas têm muitos amigos no facebook. é onde têm mais amigos. Se,de repente, essa pessoa deixar de colocar posts ou likes, não mostrar as suas selfies, os amigos vão preocupar-se com isso? se calhar não. acho que impera por lá a inveja, não a preocupação... Acho que os blogues são bem mais que isso. As pessoas não são sempre felizes; quando querem, mostram a vida que realmente vivem. E, às vezes, a amizade nasce, quando nos identificamos com essa pessoa. [Bem sei que há por aí gente com mais imaginação do que vida própria.] Há cerca de dois anos, uma pessoa frequente no meu blogue, deixou de escrever no blogue dela e nunca respondeu a emails que varias pessoas "chegadas" lhe haviam enviado, inclusive eu. tinha-me deixado um apelo no seu blogue, a que depois respondi e nunca mais tive resposta. ainda hoje tenho o seu blogue na minha de lista de leituras, para o caso dela voltar. mantenho a esperança que nada tenha acontecido. Agora volto a preocupar-me com a…

ironias

O meu marido conseguiu saber/sentir primeiro que eu o que e uma epidural...
(ouvimos sempre falar de epidural aquando dos partos mas afinal, não serve apenas nesses casos)

das minhas fragilidades. tenho coisas para contar, mas hoje "roubo" palavras a outros

O momento de escrever o que Maio me trouxe e me levou, vai chegar. falarei sobre isso, quando me sentir com os pés mais perto da terra e menos de cabeça para baixo. Sem os dramatismos com que agora vejo os acontecimentos.Maio trouxe e levou. A minha vida continua um novelo com muitas pontas e poucos fins à vista. tenho de falar nisso. Porquê? porque preciso. só não sei por que ponta começar.

Enquanto as minhas palavras não saem, gostei das de outrem, que não hesitei em roubar, sem pedir licença, mas dando os devidos créditos.

Tantas palavras te disse hoje,
mas as mais frágeis reservo-as
para o dia em que te encontrar.[Deste blogue]