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Dia 23 - Solidão

Solidão é:

- uma criança não ter outra para brincar;
- um idoso não ter uma companhia para  a noite de Natal;
- um sem-abrigo numa cama de cartão;
- um doente sem visitas num hospital.

Solidão,

na maior parte das vezes, existe não por opção mas por circunstância. Nos dias que correm, com tantos meios à disposição, as pessoas vivem cada vez mais sós, num mundo só seu, onde ninguém ousa bater à porta e pergunta: queres companhia?


Como me faz sentido, resolvi fazer uma reedição de um texto de 2009 a propósito de solidão e quem não quiser ler, perca algum tempo a ver o vídeo colocado ao fundo do texto:

Hoje, poucos têm tempo para pensar no significado de solidão. Talvez ninguém queira pensar que se sente só. Porque uma parafernália de inovações tecnológicas para ocupar o tempo, foi inventada. As crianças poderão passar uma tarde inteira sozinhas, que tampouco dão pela solidão.
Já não precisamos sair de casa para ir ao ginásio, ao bingo, nem para fazer compras- os nossos dedos, ainda são ágeis, com destreza hábil para correr cada tecla de uma qualquer engenhoca informática ou electrónica. Evitamos magotes de gente, tempo perdido. Mas, aquele café com os amigos, ainda necessita destes para ser possível. E de tempo -  que as pessoas argumentam que nunca têm.
Imagine-se agora, quem mal sabe ler e escrever, quem vive limitado pelas forças- aquelas que já teve, em tempos - o ouvido já mal apurado e os olhos matreiros que já não conseguem enfiar uma agulha; em que o único Magalhães de que terão ouvido falar, foi do farmacêutico, o senhor simpático que lhes vai dando as pílulas da falsa juventude, em troca de uns tostões que a caixa da miséria reservou para eles. Abandonam-se em frente à TV com a manta a cobrir-lhes  as pernas  e as mãos enrugadas da vida, ou com o xaile por cima das costas. E ludibriam a solidão assim. No aparador da sala, residem os rostos sorridentes dos filhos e dos netos, que hão-de vir, um dia, para uma visita. Não se sabe quando. Talvez no Natal…Talvez…
A maioria da população idosa vive assim. À espera, acompanhados da solidão… na incerteza de quem virá, tendo a certeza que o fim vem certamente.
Quando vejo um velho (uso a palavra no sentido mais carinhoso que possam imaginar), toca-me o coração da mesma forma que me toca, quando vejo um bebé. (Ontem aconteceu-me isso. Como em quase todas as manhã de jogging. Foi o que me fez escrever.).A ternura que me transmitem, acaba por me pôr um fim à pressa que possa ter, quando um velho precisa de dois beijos na face e dois dedos de conversa.  No fim, acabo por sentir, que daquele encontro, ficámos dois a ganhar. Cada um leva consigo um sorriso no rosto e um coração menos vazio.
Pouca gente se lembra que seremos os velhos de amanhã. Eu nunca me esqueço da fábula, Filho és, pai serás, que li quando era miúda. E se ainda tiverem tempo, vejam…



Comentários

  1. A solidão é isso tudo. Gostei muito do texto.

    Bom fim-de-semana. Beijinhos*

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  2. Sofia,


    Obrigada pelas palavras.

    O vídeo também é muito bom.

    Beijinho

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  3. Já me puseste de lágrimas nos olhos, o video é mesmo tocante...

    Falta-nos tanta consciência...

    Beijo

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  4. S.o.l,

    a ideia não era pôr ninguém a chorar. Bastava pôr pensar.

    Achei importante que as pessoas tomassem a noção da realidade. por isso, se não lessem o texto, ao menos, vissem o vídeo. Já o tinha colocado noutro lado (tempos passados) e fez todo o sentido voltar a repetir.

    Beijinho (e não quero ninguém de lágrimas nos olhos).

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  5. Hoje estou lamechas :))

    Mas se põe lágrimas nos olhos, é porque surtiu o efeito. Há sempre o lado positivo das lágrimas. De resto é retê-lo, não esquecer... e fazer o que está ao alcance de cada um.

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  6. Querida Alice, eu preferi ler o teu texto de 2009. E tens toda a razão: hoje são os nossos velhinhos, amanhã seremos nós.
    No entanto, como se costuma dizer "nas costas dos outros , vejo as minhas", começo lentamente a preparar essa fase da minha vida, para que a qualidade dela seja muito melhor.
    Beijinhos e bom fim de semana. :)

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  7. S.o.l,

    Não estás nada lamechas.

    Foste sensível.

    e quanto ao resto, tens toda a razão.

    BJS

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  8. Manuela,

    A blogoesfera está cada vez mais estranha. As pessoas gostam de textos curtos e cheios de futilidades, na maior parte das vezes. Por isso, antes que as pessoas fugissem só porque reescrevi um texto enorme, salientei que há um vídeo que vale a pena ser visto (acho eu)! e as pessoas que percam algum tempo a pensar.

    Quanto aos teus dias, espero e desejo que nunca venhas a provar o sabor da solidão. Ninguém merece, tu menos ainda.

    Beijinho grande

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  9. Já conhecia o filme...e ao ler o teu texto pensei que seria uma ótima legenda para tão comovente filme.
    Beijinho

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  10. já há uns tempo que vi o videio e emcionei-me.
    hoje voltei ao mesmo.
    é lindo e tão verdadeiro

    ResponderEliminar
  11. Já conhecia este filme. As tuas palavras acentam na perfeição neste filme.

    Solidão é mesmo isto que descreves. E solidão é também aquilo que podemos evitar que aconteça se nos dedicarmos um pouco mais aos outros.

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