segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Ao meu menino


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Lembro-me do vestido azul escuro, com bolinhas azuis claras, – a lembrar bolas de sabão - que a minha mãe trazia no corpo. Outubro. Um mês inexplicavelmente quente nesse ano. Lembro-me que se abraçou à barriga proeminente, sentindo mais fortes as contracções que tinham começado durante a noite. Eu senti, na minha pequenez de idade e altura, que finalmente ia acontecer.


Lembro-me que o meu pai foi, a correr, chamar o taxista da terra, para a levar à maternidade. O Renault 5, só apareceria dois anos mais tarde, lá por casa. A minha mãe terminou de fazer a cama. Lembro-me da colcha cor-de-vinho da cama e do desconforto espelhado na cara.

Na euforia do momento, lá seguimos para a maternidade. Ainda me lembro que não queria largar a mão da minha mãe, quando entrou para a sala de partos. Lembro-me dela tirar da mala o cobertor azul, novinho em folha, que eu vira comprar uns meses antes. Tantos anos já passaram, e o cobertor foi preservado como uma relíquia, e já mudou de casa, mas dono continua o mesmo. Agora já está grande demais para se embrulhar nele, como da primeira vez.

E, às quatro da tarde, com quase quatro quilos, lá nasceu uma das pessoas que mais amo. O meu irmão. Foi talvez uns dos momentos mais felizes da minha vida. Lembro-me de, meses antes, ver a barriga da minha mãe crescer e lhe perguntar, quando é que vou ter um irmão? Não eram vulgares as ecografias naquele tempo, mas disse-me a intuição, que seria um menino. E eu sempre quis que fosse um rapaz. Não sei porquê, mas quis… E ainda hoje é o menino. É assim que o tratamos. Onde está o menino? O menino veio cá? O menino disse-te alguma coisa? entre mim e os meus pais, nunca usamos o seu nome; será sempre o menino. O meu menino[mesmo já tendo ele sido pai].


Este texto é uma reedição. E merece ser reeditado todos os anos pelo imenso amor que tenho ao meu irmão. No ano passado, o aniversário dele foi marcado por uma eventual gravidez minha, caso o tratamento tivesse resultado. Serão duas datas que nunca irei esquecer, por razões diferentes. Lembro-me dele ter dito que seria o melhor presente do seu aniversário se acontecesse. Não aconteceu. A vida não é como queremos que seja, mas tenho a felicidade de, neste dia, há muitos anos atrás ter tido outro menino, o meu irmão.

10 comentários:

  1. Sensibilizaste-me com o teu texto. Espero que consigas atingir o teu grande objectivo e que o amor pelo teu irmão se mantenha intacto até ao fim.

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  2. Lindo, lindo. Não há outra palavra.
    Beijos

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  3. Passei aqui por acaso. Como ser humano e como pai, quero dar-lhe os parabéns pela suave beleza do texto e a maior força, para que consiga alacançar esse objectivo enquanto mulher, o de ser Mãe.
    Acredite, sempre.
    Um abraço solidário.

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  4. Que texto maravilhoso :)

    PS - Revejo-me imenso no que li... Lá em casa também tratamos por menino o meu mano ;)

    Beijinhos

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  5. Wendy,

    Sê bem-vinda!

    Obrigada pelas tuas palavras.

    Bjs

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  6. Uba,

    Obrigada. O amor por um irmão é incondicional. tal como o teu pelo teu filho.

    Bjs

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  7. Sereno,

    Obrigada pelas suas palavras. São de força, acredite.

    um abraço.

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  8. Sara,

    Obrigada pelas tuas palavras.

    Temos mais esta similaridade.:)

    bjs

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  9. LINDO.
    adorei o texto, o amor pelo mano.

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  10. Talvez por também ter um menino-mano... este texto até me emocionou...

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