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acho que este é o momento de contar

Há uns largos meses, o meu irmão foi a um supermercado onde habitualmente os produtos têm um custo baixo. Enquanto recolhia o que pretendia da prateleira reparou numa mulher na casa dos trinta, com uma criança de colo num carrinho e outra um pouco mais velha.  Os três estavam limpos e vestiam normalmente, sem qualquer luxo. Ela tirava e voltava a colocar produtos na prateleira. Parecia fazer contas.
Chegado à caixa, a dita mulher  encontrava-se umas pessoas à frente do meu irmão. As compras resumiam-se a duas latas de sardinhas, dois sacos de pão e um pacote de leite. Não existiam doces, nem refrigerantes. Quando chegou a altura de pagar, a conta era maior do que aquilo que a carteira tinha dentro. A rapariga da caixa perguntou-lhe o que queria  tirar. Indecisa sobre o que tirar, já que tudo tinha sido escolhido a dedo, ela resolveu tirar um saco de pão.
Atrás do meu irmão, uma mulher soltou um" Se não tem dinheiro, que pague com cartão"
O meu irmão, a quem aquilo estava a fazer confusão, respondeu à mulher que tinha feito o comentário: A senhora sabe se ela tem cartão?
A mulher soluçou um "desculpe".
O meu irmão chegou-se à frente e pediu à caixa que não tirasse nada. Ele pagaria  a conta. A mulher desdobrou-se em agradecimentos. O meu irmão lembrou-se do seu filho pequeno e desejou que nunca lhe faltasse comida na mesa.
Quando chegou a vez dele, a rapariga da caixa sentiu-se constrangida. Disse-lhe que talvez ele estivesse a pensar mal dela. O meu irmão apenas lhe respondeu que ela estava a fazer o trabalho dela, a zelar pelos interesses do patrão. Não tinha que fazer juízo nenhum. Ele fizera o que o seu coração mandara. Ela respondeu-lhe que ele não se arrependesse do que tinha feito porque aquela família precisava mesmo e merecia ser ajudada. 
As lágrimas caíram pelas faces do meu irmão até chegar a casa e quando me contou a história voltou a chorar e fez-me chorar.

Na altura que isto aconteceu tive vontade de escrever esta história aqui no blogue. A acção foi tão nobre e a situação tão emotiva, que se a escrevesse podia ser conotada como uma vaidade de se ter praticado uma boa acção. Embora eu considere que ajudar o próximo deva fazer parte dos nossos valores, há quem ache que praticar o bem só serve para recolher simpatias.
Anda por aí - blogosfera, FB- a replicar-se uma notícia que veio num jornal conhecido da nossa praça, de "um menino que o Gaspar não conhece".  Por isso, resolvi escrever a história 
Esta não é uma realidade de agora, lamentavelmente. Esta é uma realidade de todos os dias e felizmente, há quem se preste a ajudar. Mas também existem aquelas vozes como a que ouviu o meu irmão. Aquela que julga que um cartão MB resolve tudo. Na história que o jornal conta, tenho pena que se misturem ataques políticos com realidades bem dolorosas. Se o Gaspar não existisse como ministro e  a palavra crise não estivesse presente em todos os cenários noticiosos, acredito bem que esta história não teria importância nenhuma para quem a lia. Tão pouco seria uma notícia.

A fome acontece todos os dias, infelizmente. e não serve de arma de arremesso para ataques políticos ou likes no FB. Gostava que servisse para alertar que todos podemos fazer um bocadinho.


Comentários

  1. É de louvar a atitude do seu irmão. Até a mim me trouxe as lágrimas aos olhos...
    Infelizmente é uma realidade horrenda e é bom saber que ainda há pessoas assim. Pior mesmo é embater na realidade da fome neste país que não nos respeita.
    Um beijinho especial para vocês!

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    1. Ana,

      Olá! Sê bem-vinda!

      O meu irmão, tal como eu, cresceu com alguns valores que felizmente não são esquecidos. Não sentimos que isso seja de louvar. A fome sempre existiu mas nem sempre foi vista, e muitas vezes ignorada. O país somos nós todos, e possivelmente fomos nós portugueses que perdemos completamente o nosso amor próprio. A culpa é de todos nós e não somente dos governantes que fomos colocando no poder ao longo de todos estes anos. E isto as pessoas não querem aceitar. Preferem apontar para o lado e culpar os os outros. Para dançar o tango são precisos dois.

      Obrigada pela visita. Serás sempre bem-vinda.


      Beijinho e bom fim-de-semana

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  2. o triste ´e a historia se repetir com mil irmaos por este pais fora. todos temos alguma coisa a fazer. nao acontece so aos outros e ninguem esta imune de lhe acontecer.
    ***

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    1. t,

      sim, é muito triste.
      Espero, pelo menops, que as pessoas não ignorem que a fome existe. lamentavelmente existe.

      Beijinho

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  3. Deliciosa esta tua partilha. Obrigada.
    Quem tem um bocadinho mais deve saber dar a quem tem um bocadinho menos.
    Em tudo, na verdade.
    O mundo seria bem mais rico e, aí sim, bem melhor.

    Um beijinho

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    1. Joanissima,

      Não tens de agradecer. Só queria mostrar que todos podemos fazer um bocadinho.

      E sim, o mundo seria melhor.

      Beijinho

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  4. Eu confesso que tenho receio de algum vir a passar por isso. Por vezes não podemos dar muito, ou ajudar com muito, ou até nem participar em todas as campanhas de ajuda, mas há um dever cívico, não? E há situações que não podemos virar a cara e fingir que não é connosco. Porque hoje são os outros que precisam, amanhã podemos ser nós.

    Hoje o beijinho vai para os teus pais, que souberam vos transmitir valores que considero essenciais!

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    1. S.o.l,

      infelizmente nem todos têm receio que estas coisas lhes aconteçam. ou que acontecem só aos outro (foi o que deve ter pensado a senhora que falou no MB) E não se acautelam. pensam sempre que o dinheiro cresce nas árvores e nunca acaba. Ou que todos são ricos.

      O problema maior é quem nunac viveu faustosamente e agora nem tem dinheiro para as necessidades mais básicas.

      E sim, os meus pais sempre souberam incutir valores em nós, os quais nos orgulhamos muito.

      Beijinho

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  5. Infelizmente são coisas que se vão começar a ver cada vez mais...
    Estamos numa situação muito complicada e muitas pessoas não têm essa percepção, o teu irmão foi fantástico!
    Jocas

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    Respostas
    1. Candybabe,

      Isto vai acontecer cada vez mais, e temos de estar atentos. Se pudermos ajudar, tanto melhor.

      Quero acreditar que há muita gente capaz do mesmo acto que o meu irmão.


      Beijinho

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  6. Alice, como sabes por aquilo que já escrevi no meu blog, aprendi muito cedo o que é ter que contar os "tostões". Mas também aprendi que, felizmente, ainda existem muitas pessoas boas como o teu irmão que sabem o que é solidariedade. Assim como que também existem muitas pessoas como a outra senhora que falou no cartão MB, às vezes até mais próximas de nós que meros estranhos (família, mesmo).

    Agora e sempre é importante sermos "uns para os outros". E é esse sentimento que tento incutir todos os dias nos meus filhos.

    Um beijo e uma boa semana

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    Respostas
    1. Carla,

      Sabes como se diz? Santos da casa não fazem milagres. Umas vezes a família desconhece as condições, outras vezes ignora. Felizmente tanto eu como o meu irmão costumamos estar atentos a estas situações, e os nossos respectivos companheiros também têm essa sensibilidade. Não temos problema nenhum em ajudar quem mais precisa. Contudo, nem toda gente aproveita a oportunidade.

      Fico muito contente que também tu tenhas o cuidado de incutir esses valores nos teus filhos. Os homens e mulheres de amanhã não podem ignorar estas situações, julgando que toda a gente nasce num berço de ouro.

      Bjs

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  7. Bem haja o teu irmão pelo ser humano que é!
    Beijinho doce :)

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    Respostas
    1. Querida Daisy,

      Felizmente ainda há mais gente como o meu irmão. Mas também há quem se queira alhear e assobiar para o lado.

      Beijinho

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  8. Essa tua história deixou-me de rastos... Não consigo imaginar como alguém consegue viver assim e ainda mais com filhos.
    A verdade é que sobreviver já é a forma como muitos são obrigados a encarar a vida e tal não é justo... não num país civilizado como o nosso.
    Não foste apenas tu e o teu irmão que choraram... Eu deste lado não consigo conter as lágrimas porque penso que amanhã essa família estará a viver outro dia cheio de dificuldades. Como poderá uma mãe dormir sabendo que não tem como nutrir os seus filhos no dia seguinte??? Só a ideia é-me demasiado avassaladora.

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    Respostas
    1. sarita,

      Lamento se te transtornei, mas infelizmente isto não é ficção.

      o meu irmão já tentou saber mais pormenores sobre a situação desta família, e já se mexemos para ajudar.

      Isto é uma realidade à qual não podemos ser alheios. Vamos todos tentar ajudar. Às portas de casa podemos ajudar, em lugar de nos desresponsabilizarmos e julgar que o assunto não é connosco.


      Beijinho

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  9. Estas histórias deixam-me sempre de coração apertado. Um grande bem haja ao teu irmão, como a todas as pessoas como ele que não ficam indiferentes perante estes dramas, cada vez mais frequentes, infelizmente. É certo que sempre existiram, mas agora são mais em número e frequência. É o caminho doloroso que o país tem para os seus cidadãos. E nem imaginas como isso me assusta e me condiciona em muitas decisões futuras.
    Bjinhos

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Raiozinho,

      A probreza sempre existiu e solidariedade também. O problema é que há cada vez mais pobres e cada menos solidariedade.

      Todos podemos fazer um pouco, logoà porta de casa.

      Gostaria que as pessoas fizessem isso de coração e não a esperar alguma coisa em troca.

      Beijinho

      Eliminar

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