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Grandes planos

Durante muitos anos, não apreciei jarros e lírios. Achava que eram as flores dos mortos e dos pobres, respectivamente. A minha mãe habitualmente tinha (e ainda tem) jarros no jardim. Durante imensos anos achei que aquelas flores apenas serviam para ornamentar a morada dos mortos. Nunca perdi demasiado tempo a olhar se eram ou não bonitos, o branco parecia-me demasiado vulgar para perder tempo com eles. 
Um dia -não há muito tempo-, fui conhecer o palácio de Seteais, e vi uma jarra enorme de jarros. Amei vê-los ali, em molho, numa brancura singela, misturado com o ambiente vintage. Apagou-se a ideia que tinha dos jarros, passei a apreciá-los muito. Ao ponto de os ter no quintal, hoje ligeiramente perturbados com a vinda da geada. Estavam tão bonitos! Agora quando vejo jarros, lembro-me de Seteais, de um bonito Palácio, e de uma jarra cheia de jarros brancos. Uma ideia desfez-se dando lugar a outra, muito mais agradável.
Os lírios, na minha infância, só existiam nos jardins de gente muito pobre. Com poucas sépalas, achava-os nus, sem jeito, insossos. Pareciam não precisar de tempo nem cuidado. Pareciam-se com ervas daninhas quanto ao trato. Hoje acho-os delicados, de uma beleza ímpar embora muito fugaz. Facilmente perdem o brilho, esmorecem. Há quem os associe aos homens. Curiosamente, hoje vêem-se tão pouco nos jardins. Por isso, tenho uns quantos no quintal, e tenho pena de não ter mais. Na minha infância só os conhecia roxos. No quintal, desabrocha agora um amarelo também.

Há coisas que não gostamos ou que nos são indiferentes, não sabemos nem porquê. Estão ali, e talvez por nos habituarmos a que sempre estivessem ali, nos passem ao lado sem que analisemos o porquê. 
Quantas vezes não gostamos de uma pessoa ainda antes que ela abra a boca? No outro dia, ouvia alguém dizer que não tinha nada contra o homem com quem se acabava de reunir. Mas não gostava dele. Justificava-se com o facto de o homem ter uma barbicha estranha. Talvez fosse isso, dizia. Não sabia ao certo.
Acho que as etiquetas gosto e não gosto, podem dever-se a reminiscências de coisas que já vivemos. Que um dia, nos trouxeram um episódio mais ou menos agradável, uma avaliação mais ou menos positiva da situação. Afinal, somos mais que genética. Somos resultado também do que os outros fizeram connosco.
Acho que isso se aplica a tudo na vida. Gostarmos (ou não) de pessoas ou coisas. Muitas vezes, assumimos a atitude defensiva de não gostar porque os outros nos vão censurar se gostarmos.  Ou gostamos porque os outros nos vão aceitar porque se tornamos mais semelhantes, próximos. Acho que o nosso cérebro está estimulado para a atitude defensiva. Reage inconscientemente.
Hei-se lembrar-me sempre de jarros e lírios. Do quanto não gostava e passei a gostar. Das ideias pré-concebidas e do quanto os outros nos podem influenciar nas escolhas. 


Comentários

  1. Respostas
    1. ladybug,

      Pois são. Agora gosto tanto! :)

      Eliminar
  2. O meu filho mais velho sempre foi um miúdo diferente. Com gostos diferentes a nível de leitura, de música, de brincadeiras dos outros miúdos da idade dele. Atravessou uma fase em que tinha vergonha de assumir os seus gostos e a sua maneira de ser e de ver a vida, por causa do julgamento dos outros. Por mim, sempre tentei fazê-lo entender que ser diferente, pensar diferente não tem que ser mau, até pode ser muito bom. Agora que finalmente se começa a aceitar com é, sinto-o mais feliz, mais à vontade e muito mais sociável.

    Gosto muito de lírio. Já de jarros, nem tanto ;)

    Beijinhos e uma boa semana, Alice :)

    ResponderEliminar

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