sábado, 30 de março de 2013

os que fazem parte do que somos

Ontem uma amiga falava do seu avô que se encontra no hospital. Logo me lembrei do avô do meu coração. Os pais da minha mãe nunca nos foram muito chegados. Mas o pai e a madrasta do meu pai sempre fizeram parte da nossa vida. Nunca conheci a minha avó paterna, porque ela faleceu quando o meu pai tinha cinco anos. Dela herdei (eu e o meu irmão) o seu sobrenome. Em homenagem a ela, o meu pai resolveu dar-nos o apelido dela e não o seu. Somos os únicos netos que não temos o apelido do meu avô.
O meu avô era um excelente contador de histórias. Tinha uma memória fabulosa. Apenas sabia assinar o seu nome. Conhecia as letras mas não as juntava.
O meu avô foi a prova que foi para os netos uma doçura que nunca foi para os filhos. Foi um pai duro, de pulso firme mas um avô doce.  
Lembro-me de ele comprar - para os cinco netos - uma égua preta que só nos deixava montar com os nossos pais presentes. Havia também a charrete onde chegámos a andar todos. Lembro-me das tardes do dia de Natal e de Páscoa que passávamos em casa dele. Havia sempre bolachas baunilha, que abríamos e lambíamos o creme. Tentávamos abrir as bolachas sem lhe partir nenhum bocado. Lembro-me dele tentar aliciar-me a beber um copo de vinho, era ainda eu uma criança, só para testar se eu viria a gostar. Lembro-me das desfolhadas e da tangerinas que me pedia para colher do quintal. lembro-me de ir com ele apanhar enguias.
Os dois últimos anos foram de sofrimento. Ainda conheceu o meu marido quando era ainda meu namorado, e apesar de estar numa cama de hospital, deixou-lhe um sério aviso: se viesse por bem, seria bem-vindo. Viesse com más intenções e nunca mais deveria voltar.

Tenho saudades dele. Muitas. 


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