quarta-feira, 10 de abril de 2013

aquele sorriso

Se eu chego e ele já está em casa, pergunta-me logo como foi o meu dia. Normalmente, sou sempre evasiva nas respostas, porque nunca acho relevante o que tenho para contar. Ou que não vale a pena estar a chatear-me outra vez. Ou porque sou assim, quando tenho de falar de mim. Sei lá!
Os primeiros minutos acabam por ser aproveitados entre terminar o jantar e os "casos" dele. na maior parte dos dias, não há finais felizes. Infelizmente. Ontem havia um desses casos. Começou a contar e li-lhe logo na expressão que me iria impressionar;  pedi-lhe que parasse se soubesse que isso ia acontecer. Estancou a frase que lhe ia a sair mas adivinhei o fim, a causa e palpitei a idade. Fiquei estarrecida, apesar de não conhecer a pessoa transportada.
Acabámos num debate sobre a morte. Algo que normalmente evito e que para ele é tão natural como a sede.
Ele acredita em Deus, acredita que as pessoas que praticam o bem, podem não ser compensadas nesta vida pelo bem que praticam, mas que o serão noutra vida [a propósito de eu dizer que deixei de acreditar que tudo se paga/recebe cá na Terra]. Ele acabou por rematar que, se a morte fosse algo escuro e vazio, as pessoas não a abraçariam com um sorriso segundos antes do último suspiro - como o fizeram todas as pessoas que já viu partir, inclusivamente a mãe. Ontem aconteceu mais um desses sorrisos.
Se realmente for assim, talvez eu fique um pouco mais descansada. Mas não há nada que me prove que ele tem razão.

7 comentários:

  1. Também penso e quero pensar assim... apesar de serem muitas mais as pessoas que querem viver e estar sempre perto dos seus, a hora da morte chegará um dia e o pior de tudo é partirmos e deixarmos coisas por dizer ou fazer, às vezes são actos simples mas que fazem toda a diferença. Se em vida nos inquietamos com atitudes ou palavras que fizemos ou não, imagino que na hora de morrer e sabermos que ela está a chegar e não termos uma única oportunidade de fazermos tudo o que achariamos bem antes de partir...E são tantas as vezes que a morte chega a pessoas que tanto mereciam viver...

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    1. Susana,

      Tens o meu imenso respeito por veres as coisas tal como o meu marido. juro que tento, mas não sou capaz. As minhas convicções são diferentes, ou melhor, não há nada científico que me possa provar tudo isso. Possivelmente devo ter um trauma qualquer relativamente à morte. Vou tentando contorná-lo, mas nem sempre é fácil.

      A morte não se compadece se quem parte faz ou não falta, se merece ou não viver. Vem e pronto.

      Beijinho

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  2. A Morte é apenas e só mais um passo na vida. O que morre é este corpo físico que temos, pois a alma, essa é imortal. E continuaremos a nossa jornada por cá ou em outro lugar qualquer no Universo onde precisem de nós! ^^

    Quanto à parte de tudo o que se faz, tudo se paga, seja bom ou mau, também é verdade. Existem muitas formas de se pagar, nem sempre vísiveis aos olhos de quem foi vítima de alguma injustiça. Como tu bem sabes, o que se passa na vida de cada pessoa, só ela mesma sabe.

    O mais importante é saberes viver cada dia. Ver sempre o lado bonito que a vida tem. Dizer "amo-te" a quem merece ouvir, a começar por ti própria. Todos nós temos tendência, por sermos humanos, a estarmos insatisfeitos com a vida que temos. Mas existem tantas pessoas que estão tão pior do que nós! Temos que agradecer as coisas boas que temos, desde o tecto para dormir aos alimentos e roupa que temos, passando pelo amor, pela saúde - que tantas vezes nos falha - e que são sem dúvida os bens essenciais para vivermos uma vida em pleno.

    Como dizia o António Feio, na mensagem do filme Contraluz:

    [Filme esse que adoro. Fui ver o filme na tarde do dia em que ele partiu - senti-me muito tocado com a partida dele, senti que ele tinha deixado aquela mensagem para mim - e depois de eu a ter recebido, ele podia finalmente libertar-se do sofrimento em que estava]

    "Aproveitem a vida e ajudem-se uns aos outros.
    Apreciem cada momento.
    Agradeçam.
    E não deixem nada por dizer, nada por fazer..."

    Beijinhos :3

    "

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    1. Kuma,

      Acredita que esse é mesmo o meu lema. Apreciar o momentos, agradecer e ajudar os outros.

      faço por isso, o melhor que sei.

      Obrigada.

      beijinho

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  3. Realmente é preciso ter coragem num trabalho assim. Eu não conseguiria...
    Acho que o facto de ter uma fé tão forte, ajuda muito o teu marido a encarar uma coisa normal. E realmente é normal, faz parte do ciclo da vida. Mas não é normal. :)Percebes, não é?
    beijocas

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    1. uba,

      Acredita que ouço contar tanta coisa. E sei que ele me omite algumas para não me chocar.
      A primeira pessoa que lhe morreu nos braços foi o seu melhor amigo. Tinham na altura 5 anos. Ao longo destes anos - cerca de 20 anos ao serviço dos bombeiros- já aconteceram mais casos (assim como já fez nascer crianças. Foi ele que tratou da mãe quando lhe foi diagnosticada uma doença em fase terminal, e nas últimas horas dela, perante tanta sofrimento, pediu que a morte chegasse depressa. Ela despediu-se com um sorriso. E a muitos que já viu depois, aconteceu isso. Por isso, ele crê que o que está para lá desta vida, não é mau.

      Sabes, quando uma coisa passa a ser rotina na nossa vida, passamos a considerá-la normal. Como ele me diz sempre: "se eu me pusesse a pensar sempre em tudo isto, enlouquecia. tento abstrair-me."

      Mas concordo contigo. É preciso coragem.

      Beijinho

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  4. Acho que é a fé do teu marido e a maneira como ele encara a morte que o ajuda a encarar o seu trabalho de uma maneira mais "fácil". E era bom que fosse a morte acontecesse como ele diz ser. Gostava de acreditar que sim.

    Um beijo

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