sexta-feira, 24 de maio de 2013

as escolhas e o insólito

A minha mãe revolta-se quando se diz que as pessoas estão em crise que não têm que comer. Engane-se quem pensa que é pela fome, que não é. Ela diz que nunca se viveu tão bem como agora, que a pessoas têm tudo e não sabem o que é prioritário e o que é secundário. Acusa as pessoas de falta de esforço e vontade em viver de forma humilde. Diz que, as pessoas  têm um quintal (vive-se numa aldeia) para ter couves e cenouras, e até uma galinha ou duas, mas não estão para se chatear.
Revolta-se porque trabalhou toda a vida, sol a sol, enquanto os que  foram cigarra viveram de forma faustosa, que agora se queixam, e antes troçavam. Amealhou todos os tostões que podia e nunca passámos fome. Esmerou-se por isso, vivemos humildemente e sabe Deus os sacríficios que fez.
Já ofereceu alimentos a pessoas que  recusaram aceitar, preferindo dinheiro. Isto tem aunmentado a sua revolta.
Ela continua a dizer que há muito terreno para cavar e se a crise é tanta, ainda não viu ninguém que se queixa, agarrar numa enxada e começar a trabalhar para comer.
Conto isto, porque acabou de acontecer uma situação na empresa que, se calhar, lhe vem dar um pouco de razão.
Precisamos de pessoas para trabalhar na produção. O trabalho não é dos mais limpos, mas faz-se. Pagam acima do salário mínimo, se é que isso tem importância agora.O ambiente tem algum pó a circular. Foi pedido esta manhã a uma agência de trabalho que mandasse candidatos. O candidato chegou há pouco e a entrevista durou cerca de três minutos, nem sei se tanto.
Quando lhe começou a ser explicado o trabalho, ele pediu a palavra e disse não estar interessado. A sua justificação: tem olhos claros e pele clara, por isso não pode trabalhar com pó. Insólito isto. Precisa de emprego! Não fosse a justificação dele, eu diria que ele andava a snifar um pó qualquer que lhe estava a atingir o cérebro.

Há coisas que não se justificam; aqui não se trata sequer de um problema de gastos. poderia vir de bicicleta, já que mora a cerca de quilómetro e meio da empresa. Tem de se começar por algum lado, mesmo que não se goste.

Ainda esta semana, tive dois clientes a queixarem-se que querem pessoas para trabalhar e que lhes aparece muita gente. Mas que não querem trabalhar. Se lhes põe a hipótese de trabalhar ao sábado de manhã, num trabalho de escritório e  sendo-lhes pago esse tempo, não querem!

Isto leva-me a começar pensar como a minha mãe. As pessoas não arranjam soluções para as suas próprias vidas, muitas vezes porque não querem. Sei que não se podem fazer generalizações.
Custa-me muito ver gente passar fome, mas começo a ficar apreensiva em dar a quem está sempre de mão estendida. Eu sou uma das pessoas, tal como os meus pais, que não somos responsáveis pela crise, e estamos a pagá-la, sem piar. Reajustamos a nossa vida. Nunca ganhámos cinco para gastar dez. Gastámos dois para poupar três.

É capaz de haver alguém que se aborreça com o que disse, mas não posso deixar de ser genuína, só para agradar.
e eu que nem sou de falar das coisas que já fiz aos outras, porque as acções ficam para nós, nunca neguei comida a ninguém e já me prestei a colocar comida na dispensa de alguma pessoas. e não me arrependo.

10 comentários:

  1. Engraçado que também dou razão há tua mãe. As pessoas agora não querem um trabalho querem um emprego. E isso são duas palavras com uma diferença muito grande. É óbvio que claro há pessoas que não podem ou pessoas que querem e não encontram. Mas a tia por exemplo é recursos humano numa superficie comercial e já teve recusas porque as pessoas estão em casa com o subsidio de desemprego , não tem horarios, não trabalham aos fim de semanas. Outros que não querem porque não querem ter que tirar as rastas ou o piercing. Hoje em dia acho que há uma falta de valores morais, e por isso não se sabe dobrar a espinha e agradecer. Atenção,não digo que é regra geral, mas que há uma grande percentagem de pessoas assim, há.

    Beijos
    Sofia G

    ResponderEliminar
  2. A minha opinião é igual à da tua mãe! Só vejo é aldrabões.

    Bjo*

    ResponderEliminar
  3. Concordo contigo que muita gente em dificuldades não está disposta a lutar para mudar de vida e recusa oportunidades...conheço casos eu também! Por outro lado há quem precise desesperadamente de trabalhar e se empenhe na procura e não seja exigente no que lhe apareça e mesmo assim não consiga...Este flagelo do desemprego é mesmo complicado...mas acredito que quem não desiste e não se importa de recomeçar por baixo acaba por encontrar algo..!
    Boa semana para ti!
    Bjs
    Maria

    ResponderEliminar
  4. As coisas não são assim tão lineares. Trabalho na acção social e vejo muitos exemplos e muitas histórias. Em algumas delas sim, é coladinho ao que dizes. Noutras não, são pessoas lutadoras que de repente se viram sem nada, sem emprego, sem dinheiro. Que vivem em apartamentos que agora não podem pagar, que têm filhos a estudar que não conseguem alimentar, nem vestir, nem dar esperanças... Pessoas como nós, que de repente ficaram sem chão. Não é fácil!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Uba,

      Concordo com tudo isso que acabaste de dizer, se não nem me prestava a auxiliar. Nunca recusei comida a ninguém e muitas vezes prestei-me aajudar sem que mo tivesse pedido .
      Há aquelas pessoas que devemos tirar a roupa para lhes dar e outras que não merecem. Mas um bocado de pão não se nega a ninguém.

      Sei que deverás lidar com muita gente carenciada, e há pessoas que não merecem o que estão a passar, mas outras foram vítimas das suas próprias grandezas.

      Eu não quis generalizar, e continuo a não querer. tenho pena que há quem possa ter um emprego e mesmo assim recuse por não se tratar de dinheiro fácil.

      Nos tempos que correm, com o desemprego a subir, desencantar um e ainda por cima, perto de casa, é mesmo muita sorte.

      A crise tem muitas faces, há quem precise, há quem se aproveite e há quem se queira de fazer de vítima. todas as histórias têm diferentes perspectivas. ter contado esta perspectiva não invalida outras.


      Beijinhos

      Eliminar
  5. Sabes que mais? a tua mãe tem toda a razão. Concordo plenamente. Muitas pessoas usam e abusam da palavra crise. Há que ter prioridades. Eu conheço uma pessoa que mora aqui perto, os filhos vão para a escola sem comer mas ela vai ao café e fuma. Depois diz que vive na miséria e que o país só a empurra para baixo. Vá mas é trabalhar!!! Ou então deixe de ir para o café gastar o que não tem. E mais, deixe de fumar!
    A tua mãe tem toda a razão.

    Beijinhos

    ResponderEliminar
  6. Sempre disse que o Portugal em Portugal era a mentalidade... e enquanto isso não mudar a crise jamais terminará. As pessoas preferem viver das aparências do que saber como gerir a vida... é triste mas uma grande realidade!

    Um beijo doce xxxx

    ResponderEliminar
  7. eu também prefiro dar comida a dar dinheiro pois la está nao sabem o que é prioritario e o que é secundário às vezes...

    ResponderEliminar
  8. Embora te dê toda a razão, também existe o oposto: pessoas que trabalham, mas os patrões usam, abusam e gozam com os empregados, como é o caso do meu irmão que trabalha num restaurante e até há pouco tempo, esteve com 5 meses de salário em atraso. [actualmente está com 3 meses + subsídios de férias e Natal do ano passado]. Fosse ele viver por conta própria e estava bem lixado...e o Estado neste país ainda protege os patrões: por lei, os patrões podem estar a dever 3 meses de salário aos empregados, que o Estado não mexe uma palha. Só depois dessa data. É triste. Dá que pensar.
    Beijinhos

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. João,

      Não me estás a dar novidade nenhuma. A crise tem muitas faces. Eu só mostrei um aspecto da questão. Os que se queixam e nada fazem.
      E só para aflorar um pouquinho o assunto, porque pouco interessa aprofundar, mas aqui em casa na altura de casar, com coisas para pagar, o meu marido tinha uma quantia avultada para receber da empresa onde trabalhava. Pagava para trabalhar, fazia 60km por dia. Preferia que outras pessoas que precisavam de dar comida aos filhos recebessem, do que ele. O almoço deles era uma banana e um pão.ele chegava a casa e contava o drama e chegavam a correr-me as lágrimas pela cara abaixo. Nós apertámos bastante o cinto nessa altura, cortámos em tudo o que era supérfluo (ainda vivemos um pouco assim, por opção, se não precisamos para quê ter?). Fizémos por cumprir os nossos compromissos, vivendo da forma mais humilde possível, com o sentido do que era prioritário. e vencemos.
      E tudo isto foi a aplicação prática daquilo que tinha sido a nossa educação. De outra forma estávamos agora atolados de dívidas se tivéssemos comportamentos megalómanos não tendo dinheiro.
      Por isso, sem bem do que falas. Na primeira pessoa.tenho voto nessa matéria.

      Desejo boa sorte ao teu irmão. que consiga solucionar esse problema.

      Beijinho

      Eliminar

Tens alguma coisa para dizer? Obrigada por partilhares! ;)