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morreu-lhe um pedaço da alma

Hoje a decisão saiu definitiva. O que nunca pensei que viesse a acontecer, aconteceu. Ele chegou a um acordo, Não sei isso da boca do meu pai , o principal visado, mas custou-me ouvir aquilo que vai matá-lo um pouco. Soube-o pela minha mãe. Talvez por sermos parecidos em muitas coisas, ou por este lado cuidador que dizem que tenho, sei que isto lhe está a custar. A mim também. Sei que vai querer parecer despreocupado, vai dizer meia dúzia de baboseiras sem sentido, por não saber lidar emocionalmente com a situação, mas eu sei que lá no fundo lhe dói. Esconde mal a dor. Ou eu sei ler-lha demasiado bem, como ele costuma ler a minha. E calamo-nos os dois porque falar dela nos custa demasiado.Custa-me a mim, por ele. A ele custar-lhe-á por tantos anos com esta rotina. 

Andou a pensar na reforma há uns dois ou três anos atrás, mas acabou por arranjar argumentos para não pôr os papéis. Não creio que tivessem sido as penalizações na reforma que o demoveram da ideia, foi o amor à casa que durante tanto tempo o acolheu.Tem mais de quarenta anos de descontos, mas a força invisível que o atrai aquele lugar sempre foi mais forte. Zelava por tudo como se fosse seu.
Apesar de todas as rezinguices que lhe ouvi,  sei que gostava do seu trabalho. Era a sua vida. Ao ouvi-lo contar as coisas de lá, ao longo destes anos, aprendi valores como honestidade, lealdade, empenho, devoção, brio, perfeição, dedicação, organização. Guarda cada uma das suas folhas de vencimento religiosamente. Amanhã será emitida a última.
Eu tinha meses quando ele foi para lá trabalhar [eu pensava que ele tinha sido antes de eu nascer, mas afinal, não!]. Lembro-me no dia que o meu irmão nasceu, de ir com ele lá, buscar algumas coisas pessoais para seguir para a maternidade. Apresentou-me cada um dos seus colegas de secção. Na altura era um trabalhador sem categoria profissional como os demais. Recordo-me do envelope amarelo onde, nos anos oitenta, vinha o dinheiro do salário. Lembro-me das muitas noites que passou em claro para fazer crescer a empresa. falava como se a empresa fosse sua. Orgulhava-se de trabalhar lá, mais um valor que nos passou. Aquela ideia que nunca se deve cuspir no prato onde se come. Também por isso, sei que lhe está a custar muito, de  partir o coração. Lembro-me das várias administrações que foram passando, dos presentes de Natal que recebiam os filhos dos trabalhadores, dos seus colegas de trabalho e administradores que aceitaram vir ao meu casamento e do meu irmão, pelo respeito que lhe têm, dos favores que lhe pediam, das histórias dos colegas que já partiram dali e deste mundo. Ainda me lembro da primeira vez que me descreveu cada passo das linhas de fabrico, era eu pequenita. Ensinou-me  a reconhecer o logótipo da empresa no produto final e a distingui-la  dos concorrentes. Orgulhosamente, organizava pequenas visitas à empresa quando alguém lhe dizia que gostava de conhecer. Gostava de explicar pormenorizadamente todas as etapas, e escolhia sempre pessoas diferentes para o acompanharem no dia aberto da empresa. Se isto não é gostar da empresa onde trabalhava, então não sei o que será.
Já não vai comemorar trinta e seis anos de casa no próximo mês de Junho, porque amanhã será o seu último dia de trabalho. Se nos primeiros dias eu parecia mais perturbada que ele - cheguei a comentar isso com o meu marido - sei que hoje se começou a sentir um empecilho. uma espécie de coisa que agora vai ser deitada fora. Eu já tinha previsto há umas semanas que isto fosse acontecer, quando ele dizia que, se viesse embora, não se importava. Perturbá-lo-ia mais  se viesse para a rua gente que precisava do dinheiro, de pão para comer, dizia ele. Eu sabia que isso era verdade mas que havia ali outras emoções pessoais camufladas.

Foi convidado a sair há umas semanas. Ele,  todas as pessoas com mais de cinquenta e cinco anos e ainda os cadastrados. Encetaram negociações. Querem extinguir secções e subcontratar serviços. Há quem comece a vaticinar que a empresa vá passar um mau bocado, atacada pela concorrência. Ele já não vai falar das obras grandiosas que poderia participar, ou do colega que lhe pediu ajuda para lhe fazer as contas, ou do homem do sindicato que precisa de ver um manifesto do dia não-sei-quantos e que ele arquiva como um coleccionável num dossier - não pelo sindicalismo, mas pelo prazer de coleccionar uma história, de uma evolução dos tempo. Herdei dele isto de guardar tudo, porque a nossa história também se faz com a história dos outros, uma espécie de coleccionismo despretensioso.
Depois de amanhã, vai começar uma nova vida. Sei que hoje vai ter insónias e talvez amanhã esconda uma lágrima cheia de recordações que ali viveu. Vai fazer de conta que não se importa.
A vida é assim; sei que o preocuparia muito mais se um dos filhos, nora ou genro ficasse sem trabalho, mas sei também que desabituar-se a trinta e seis anos daquela empresa não vai ser de um dia para o outro. Sei que vai morrer um bocadinho de si. Já não vai ter mais histórias para contar. Não vai parar, mas vai morrer um bocadinho.

Comentários

  1. Para quem trabalhou toda a vida e para quem o fez devotamente a uma empresa acredito que não será fácil. Mas com o passar do tempo o tempo vai conseguir lidar com isso. Sabes, o meu pai reformou-se mais cedo por problemas de saúde, mas também foi daqueles que trabalhou uma data de anos na mesma empresa, sempre na mesma empresa. Hoje diz-me que se sente muito melhor assim. É uma pessoa ativa e " anda" sempre de um lado para o outro a ajudar os seus. Ele aproveita e está muito presente na vida dos filhos, talvez mais do que quando trabalhava e fazia tantos turnos malucos. Será uma etapa de aprendizagem para o teu pai, querida Alice. Boa sorte e haja saúde!

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    1. Jardim de Algodão Doce,

      Creio que ele vai ultrapassar e não é homem de ficar parado; apesar das mazelas da idade e do trabalho ainda vai gozando de saúde para se manter activo. Ainda não tem sessenta anos e muitos projectos por concretizar. quando se instalar uma nova rotina quero acreditar que não vai sentir falta. Mas como nostálgico que sei que é- também herdei a nostalgia estranha dele - de cada vez que fizer aquele caminho, vai lembrar-se de tanta coisa que lá passou, das pessoas que conheceu.

      Apesar de me preocupar com ele mas não posso evitar-lhe esta dor; a vida é assim.

      Beijinho e obrigada pelas tuas palavras

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  2. Acredito que estes primeiros dias vão ser duros. Para alguém que tinha a dedição, o brio profissional que descreves, não será certamente fácil habituar-se a uma nova vida, a uma nova forma de viver. Mas sendo ainda novo, acredito também que arranjará uma maneira de se manter activo e de fazer coisas que possivelmente trabalhando não teria oportunidade.

    Desejo-lhe toda a felicidade nesta nova etapa.

    Um beijinho

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    1. carla,

      Apesar de saber que ele se vai dedicar a outras actividades porque já fazem parte da vida dele depois do trabalho, sei que lhe vai custar. ele é muito nostálgico. Para teres uma ideia, quando fui para a universidade ele não suportava ver o meu quarto vazio. então, fechava a porta para não bater com os olhos no quarto, para não se lembrar tanto. ele é muito pegado às coisas e pessoas. Apesar de ele dizer de vez em quando que se queria vir embora, havia algum íman a mantê-lo ali, e não era apenas o dinheiro. A vida dele foi aquilo durante tantos anos e agora sente-se um pouco descartável, apesar de saber que foi melhor assim. Ele é que aceitou vir-se embora. Fizeram-lhe a proposta, ele negociou, e hoje sai de cabeça levantada. Talvez saia com o orgulho ferido e alma um pouco pesada, mas não tem que se sentir inútil ou rejeitado. As empresas estão a suprimir postos de trabalho e felizmente, o meu pai foi cauteloso durante toda a sua vida para agora não viver preocupado com o dia de amanhã.Só espero que não se vá abaixo psicologicamente e comece a deprimir, e aí é que vão ser elas.

      A minha mãe também vai sofrer um bocadito já que ele não tem o melhor feitio do mundo. e com tempo livre...

      Vamos ver como isto corre.

      beijinho e bom dia

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  3. Estou a recordar quando o meu pai se reformou, trabalhava desde os 9 anos... Foi como o teu e morreu-lhe um pedaço e foi difícil adaptar-se à sua nova condição, andou deprimido, etc, mas depois como o seu hobbie e forma de afastar o stress sempre foi andar no quintal, a plantar, a cuidar, a colher, dedicou-se a isso de corpo e alma. O quintal do meu Pai era digno de se ver. Infelizmente hoje, doente, quer mas já não consegue. O mesmo poderá acontecer com o teu, mas depois vai acabar por se habituar. Devem animá-lo e dar-lhe muita força. Beijinho

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  4. A rotina vai trocar, mas encontrará uma nova! E, poderá orgulhosamente que teve um trabalho para uma vida. O que a minha geração nunca poderá dizer. Agora esta fase inicial vai ser chata, vai. Mas agora ele tem todo o tempo do mundo para o resto das coisas da vida que existem :) Mima lo vai ajuda lo :)

    Beijos
    Sofia G

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  5. Sei bem o que isso é pois o meu pai reformou-se apenas o ano passado e sei como ele se sente: a dar em doido! Inventa tudo e mais alguma coisa para fazer em casa para se continuar a senti util em algum aspecto... trabalhou desde muito mas muito novinho e parar para a cabeça dele era como morrer um bocadinho... agora, pinta e arranja possiveis paredes lá de casa, faz peças de mobiliário inventadas por ele, tipo candeeiros e afins, para ele e familiares... e vai muitas vezes á net enviar-me mais e videos que acha bonitos. Para quem tem uma reforma pequenina que depois pouco ou nada dá para fazerem quando param de trabalhar é mesmo morrer um bocadinho... que tristeza!

    Um beijo cheio de compreensão xxx

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  6. sao muitas horas de trabalho e suor, é normal que custe :/

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