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histórias para ler à sombra (*)

No meu trabalho, a palavra padrão é usada umas boas dezenas de vezes, diariamente. O padrão é aquele a partir do qual se pretende a replicação. Quando as replicações estão longe do padrão, somos obrigados a corrigir o trabalho, e a aproximar ao pretendido. O que foge ao padrão é rejeitado, mesmo que sirva os intentos de quem pede o trabalho.

Tenho pensado muito naquilo que as pessoas instituem como padrão e no que rejeitam como replicação.[já não falo no trabalho, mas tudo se rege pelas mesmas regras que falei acima].
É difícil as pessoas aceitarem o que é diferente; e o diferente não é necessariamente mau, às vezes, é muito à frente no seu tempo.
Às vezes as pessoas têm medo de tomar atitudes ou comportamentos que não são a replicação do padrão. É difícil contrariar a norma.

Por me cruzar todas as manhãs com pessoas que se deslocam de bicicleta para ir para o trabalho, lembrei-me da norma, do padrão e da dificuldade das pessoas em aceitar o desvio ao padrão.
 eu explico o que tem o rabo a ver com as calças.
Há uns anos atrás, tive a cadeira de Estatística [falar de norma, padrão e de desvio até combina com a disciplina] foi leccionada por uma professora filha da casa, recém-chegada de um doutoramento no estrangeiro. Era uma engenheira de electrónica a quem foi dada a regência dessa cadeira. 
O que é que os alunos esperavam de uma pessoa destas? que tivesse um carro xpto, que se vestisse coberta de marcas registadas, e que fosse uma emproada, postura de professora universitária - o padrão do alunos.
Ela andava de bicicleta, colocava molas nas calças, para não ficarem presas na corrente, vestia-se de uma forma desajeitada, e tinha a postura mais humilde que se possa imaginar.- o desvio do padrão.
Certo é, que poucos a respeitavam - fugia ao padrão. Quase todos achavam estranho que andasse de bicicleta. Não entendiam o desvio do padrão e criticavam a sua postura de vida, virada para o ambiente e o minimalismo. o que interessava era vestir bem e ter uma bomba de quatro rodas.
Agora mudou o padrão, e ela que estava mais à frente no seu tempo, afinal, é agora a moda. Ir de bicicleta para o trabalho deixou de ser coisa de pobre. Passou a ser ecológico e parece muito bem a toda a gente; ninguém troça.
Padronizarmos as coisas subjuga-nos às igualdades e desrespeitamos as diferenças, Às vezes, devíamos perceber que as diferenças existem e por alguma razão será. A seu tempo, a diferença pode tornar-se padrão. Até lá, há quem viva um inferno por ser o desvio do padrão. Também há quem não se importe com os olhares de lado dos outros. Mesmo o mais incomodativos.


 
(*) título de um livro que ando a ler e a apreciar devagarinho. achei óptimo para post longo. apeteceu-me que fosse o título do post. mesmo que o conteúdo fosse uma história como outra qualquer



Comentários

  1. Outro dia tive uma conversa com o meu filho mais velho sobre este tema. O que é normal (o padrão) e o que foge ao normal. Como já disse várias vezes no meu blog, o Rodrigo é um miúdo que "gosta" de ser diferente. Não segue o que é "normal" os miúdos de 19 anos fazerem. E, apesar de ter atravessado alguns maus momentos, hoje convive bem com isso, não se importando com o que as outras pessoas possam dizer. Foi isso que sempre lhe tentei passar e agora tento também com os meus outros dois miúdos. Porque nunca percebi muito bem a "normalidade".Porque acho que cada uma deve ser aquilo que realmente é e assumi-lo sem ter qualquer tipo de problemas com o que as pessoas possam dizer.

    Um beijo

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  2. Infelizmente até as pessoas ficam fora de moda.

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  3. Sabes à medida que o tempo passa, vamos ficando menos incomodados pelo olhar dos outros, com o envelhecimento vem também o crescimento interior e com ele na maior parte das vezes a compreensão e valorização do que é de fato essencial...começamos a deixar de ligar tanto às aparências e a entender o que verdadeiramente interessa...Também em tempos terei sofrido como todos nós em algumas áreas da nossa vida por não corresponder totalmente ao "padrão"...mais tarde compreendi que era por vezes essa falta de correspondência total a minha mais valia e o que me tornava realmente única..Este processo de aprendizagem demora tempo e não funciona da mesma forma para toda a gente uns demoram mais do que outros a gerir este tipo de coisas...Gostei muito deste post!
    Bjs
    Maria

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  4. Sempre digo que as regras devem, às vezes, ser quebradas. E a inovação surge a partir de algo novo, não é mesmo? A diferença tem muito mais beleza. Bom conhecer esse cantinho! Um abraço! :)

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  5. É complicado ser diferente, mesmo que depois essa diferença se torne em normalidade...
    Mas se o fez é porque queria mesmo e era feliz assim :D

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