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Fugir à rotina do século XXI

Depois de duas semanas metido entre chamas e cinzas, ele é que desempatou nas minhas escolhas para o hotel. Merecíamos estar juntos e sem grandes perturbações- o que não se veio a verificar, mas aproveitou-se o que se pode. Soube tão bem mesmo sendo pouco. Vimos o nosso tempo bem rentabilizado.


Os principais requisitos para o local onde passar a noite era um ambiente tranquilo, confortável, romântico e intimista. A escolha recaiu sobre o Hotel do Parque na Curia. Não foi uma questão de dinheiro, foi mesmo do ambiente vintage que julgávamos ter o hotel. E não nos enganámos. Tal como disseram as anfitriãs do hotel, de uma amabilidade fantástica, há quem tenha o serviço de SPA e piscina, este hotel tem aquele ambiente acolhedor e tranquilo, a reportar-nos para outro tempo. 
O hotel tem vindo a sofrer algumas adaptações já que sendo datado da década de vinte do século passado, apenas possuía duas casas de banho em cada piso, as camas eram pequenas, e um outro sem número de mordomias que passámos a ter, que naquela época creio que não sonhassem sequer com isso. A título de curiosidade, receberam a selecção holandesa há pouco tempo e o mobiliário teve de ser adatado à estatura dos atletas. Contudo. não houve qualquer descaracterização do mobiliário vintage.
O hotel mantém o traço daquela época com o mobilário original (com pequenas adaptações). O papel de parede é mesmo vintage e, com toda a certeza, o edifício tem uma manutenção brutal que nem sempre é possível satisfazer a curto prazo, e agora muito por culpa da senhora dona crise.
A foto do post anterior é do topo de uma cómoda escrivaninha da mesma época. Mas há muitas outras peças que vale a pena descobrir.
Fomos recebidos quase com murmúrios pois na sala de estar soavam as notas de melodias conhecidas provenientes de um piano. Quem falasse muito alto iria ser notório o seu pouco envolvimento no ambiente intimista.
As sessões de piano bar dão um ar misterioso aquela sala. Pode-se sempre, além de tomar qualquer coisa, observar quem chega ou quem já está.

Posso adiantar que, apesar da quantidade de pessoas que pernoitaram no hotel, não se ouviu qualquer barulho, ou houve qualquer incómodo. 

Sei de quem se possa rir, mas tenho de contar que existiam pessoas naquele hotel que pareciam tirados dos filmes dos anos 20. Como se o tempo tivesse parado ali, há muito tempo.
Na recepção, a senhora vestia preto e lantejoulas que me fizeram lembrar muito os trajes das senhoras dos anos vinte. Acho que só faltavam aquelas bandoletes com plumas e colares de pérolas. O vestido também não era curto como nos anos vinte, mas encaixava-se tudo tão bem.
Não vou negar que criei algumas histórias na minha cabeça para as pessoas que se encontravam entre o bar e a saleta de estar. Estávamos aconchegados em pequenos sofás ou banquetas à média luz. Havia um senhor no bar a lembrar um velho marinheiro inglês que, no meu enredo mental, teria ficado coxo em algum combate. Num dos cantos da sala, sentado virado para a imensa janela aberta, um homem escrevia em folhas soltas, parando para pensar.  A ele, imaginei-o a escrever cartas de amor ou poemas dado o seu ar triste e enternecido com que ficava a olhar a lua. O piano continua a tocar e eu só imaginava quando sairia de algures um cavalheiro a convidar uma dama para dançar...
Para não estragar este ambiente, os cafés não foram servidos nas chávenas convencionais. A combinar com o ambiente, foi impossível negar o espumante que me foi oferecido. Tenho de dar mérito às anfitriãs pela forma como fomos tratados. A simplicidade foi um bom caminho para o requinte.
Pareceu que a porta da rua traçava a fronteira entre dois séculos. Por momentos deixámos de ser quem éramos e estávamos num momento tertuliano dos loucos anos vinte.
Achei que até o vento parecia compactuar com este ar romântico do hotel, quando ontem de manhã estávamos à conversa na recepção e os papéis que tinham sido escritos na noite anterior - pelo  meu personagem poeta- estavam espalhados pelo meio da saleta por causa do vento que perpassava a janela aberta fazendo dançar também as leves cortinas. Como se o poeta tivesse desistido de escrever à sua amada. Fez-me lembrar um pouco o ar dramático do Bocage.

O nosso quarto, limpo e arrumado, com mobiliário simples da época estava virado para uma das laterais de um outro hotel, também ele remodelado para satisfazer as necessidades do tempo de hoje.
O pequeno-almoço foi feito numa sala de refeições aconchegante e simpática. Satisfatório e com muitos pormenores a tornar a refeição intimista. Não viemos de lá com fome. :)

A Curia está cheio de casas Arte Nova; para onde quer que nos viremos, e mesmo algumas estando em ruínas podemos imaginar quão belas foram outrora.

Para quem gosta do estilo vintage [à séria], gostará do Hotel do Parque. Poderiam ter sido gravadas ali algumas cenas da novela Gabriela, que seria dispensável um cenário fictício.

Ficam as imagens para aguçar a curiosidade. Há muito mais para apreciar, mas isso ficará para quem quiser ir conhecer.

chave original e chaveiro(com cerca de 70 anos)

fachada do edifício

Pormenor do papel de parede do quarto

pormenor dos bancos do bar (são os originais)

pormenor de decoração- as hortênsias proliferam no hotel 

pormenor de papel de parede do corredor

vista geral do bar

piano usado nas noites de piano bar.





Comentários

  1. Que fotos tão convidativas e a simpatia das anfitriãs dá vontade de ir conhecer o sítio :)

    Beijos*

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Menina Blanche,

      Isto é apenas uma pequena amostra do que aquele hotel tem para mostrar.

      Vale a pena a visita. É um hotel diferente.Apetece fotografar tuuuudo!

      Beijinho

      Eliminar
  2. Conheço...é de fato lindíssimo...ótima escolha!!!
    Bjs
    maria

    ResponderEliminar

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