terça-feira, 31 de março de 2015

O meu nome é Alice

Ainda não nos levantámos apesar da manhã já ir longa, pelo adiantar do relógio para a hora de Verão.
Preciso sair do registo romântico em que me tenho embrenhado avidamente, nos últimos tempos. Tenho precisado disso. Ele dorme, e eu já absorvi uns quantos capítulos d' O meu nome é Alice, que comprei no dia anterior.
De repente, vejo-me envolta numa torrente de emoções difíceis de controlar.
Vou proibir-te de ler livros nestas alturas - enquanto me encosta a cabeça ao seu peito e me limpa as lágrimas. Acordei-o com o meu choro convulsivo. Abraça-me com carinho, como se me quisesse proteger de toda a tristeza do mundo. Sabe bem que tudo me emociona, de há uns tempos para cá. Quando me pergunta sobre o que é o livro e lhe respondo que é sobre Alzheimer, compreende. Falamos disso. Sobre se é hereditário. Sim, é. - respondo-lhe. Ele sabe há muito tempo que tenho medo de perder a memória. Talvez desde um dos meus aniversários mais longínquos que o sabe, quando me ofereceu O diário da nossa paixão - um livro que continuo a gostar muito. Talvez tenha sido aí que lho tenha confessado. Ele também conhece demasiado bem o meu sexto sentido e sabe que não pode ser ignorado.

Lembro-me do meu avô se esgueirar pelo portão, passando horas desaparecido. Ou de não reconhecer a mulher e as filhas. Ou de não conseguir enterrar a colher na sopa e esgravatar com ela na toalha da mesa, julgando estar a chegar ao prato. Querer comer cascas de ovos como se fossem pão.  O meu avô, a quem pouca gente ouviu dizer um palavrão, irritar-se quando lhe queriam despir a camisola para lhe vestir o pijama. Largar impropérios que nunca ninguém lhe ouvira. Caminhar dezenas de vezes de um lado para o outro, no pátio enorme, e não reconhecer que estava em casa.  Ou fazer as necessidades em locais estranhos.  
Ele  que, ainda de mente sã, todas as noites dava graças a Deus e aos Santos, pelo dia, pelas refeições, pelas alegrias. e pedia que lhe conservassem sempre a memória até ao fim dos seus dias. Ironicamente, passou três longos anos a viver na escuridão que a falta de memória lhe deixara. le que tanto tinha pedido que fosse preservada. Ele sucumbiu à doença num final de Dezembro, no dia em que fui operada à garganta. Passei a noite sozinha na clinica, sem a minha mãe. Estava a poucos meses de fazer dez anos. Durante três anos partilhei a minha mãe com uma pessoa que era mais criança do que eu. Que era incapaz de reconhecê-la como sendo a sua filha mais nova. Durante este tempo, convivi com uma realidade que só mais tarde veio a ter o nome de  Alzheimer.
 Jamais esquecerei aqueles três anos que a memória do meu avô foi desaparecendo. Ou talvez não deva dizer  Jamais - avisa-me o meu sexto sentido.

Acabei de ler o livro no domingo à noite, quando ele já dormia ao meu lado. Enrosquei-me nele e sequei as lágrimas encostada às suas costas, acalmando com seu calor e a a sua respiração cadenciada e tranquila.


Obrigada S.o.l., por me teres despertado a vontade de ler o livro (gostei muito apesar das lágrimas!), antes de ver o filme. Este último será visto quando eu não tiver as emoções tão à flor da pele, algo que ultimamente não consigo evitar.








4 comentários:

  1. Tb li o "Diário da nossa paixão" :) e desde essa altura que essa doença me assusta :/ apesar de até à data não ter lidado com ela directamente ... graças a deus ... dps vi o filme, que a minha princesa meu deu, e agora vi "Still Alice" ... não li o livro mas acho que ainda o vou fazer ... apesar de me abalar tb me alerta ... pois há coisas que podemos fazer para tentar evitar que ela nos bata à porta ... beijinho Alice.

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  2. Vá, já é de manhã. Limpa essas lágrimas. Acabaste de ler um livro bom, dormiste enroscadinha a alguém que amas e que te ama, e depois disso, tenho a certeza de que melhores coisas virão!
    ´bora lá levantar a cabeça e fazer um brinde, afinal Abril é das duas!

    Beijinho

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  3. Também chorei baba e ranho no Diário da Nossa Paixão... São realidades que me assustam e se um dia me acontecer... Tomo medidas!!!!
    Não vejas agora*
    ;-)

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  4. Adorei o Diário da nossa paixão, li-o na praia e chorei babae ranho, ninguém que estava comigo entendeu o porquê, quando ao Alice, ainda não li nem vi o filme, mas vou fazê-lo.
    Mas não adianta sofrer por antecipação, viver cada dia o melhor que se pode é o caminho. Vá, vai... Beijinho :)

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