domingo, 1 de novembro de 2015

Coisas# 4.1

Ainda a propósito do posto anterior - e não apenas por isso - fiquei a ter noção de uma coisa que, possivelmente ainda não tinha pensado. Ou em tempos pensei, por o meu marido - sendo bombeiro - ter ajudado a fazer um parto.

Tenho a noção que o meu "à vontade" entre médicos, enfermeiros e restante pessoal de saúde leva-me a vê-los apenas com a singularidade de serem aqueles em quem confiamos para nos tratar de saúde. Se assim não fosse, teria vergonha como tenho se fosse não uma pessoa do ramo. São pessoas em que confio e que, à partida, nunca nos farão mal. Não vou entrar em questões de negligência e similares, se não ninguém ia ao médico ou recorria a qualquer profissional de saúde.

Sei que as pessoas da saúde têm que ser quase inertes às dores dos outros. Nem sempre são bem interpretados pelas palavras ou o tom de voz que usam para usar determinada notícias. Quando o nosso coração chora, há palavras que filtramos da pior maneira possível e temos tendência a infligir nos outros uma dor que é a nossa. No entanto, não deixam de ser pessoas com os seus problemas, os seus dias maus, as suas incapacidades. 

Quando disse no post anterior que Deus - se existe - parece jogar xadrez com os habitantes da Terra, se calhar, teve hoje ainda mais força.

Sofrer de infertilidade e ser profissional na área da obstetricia/ginecologia/neonatologia é uma tremenda ironia. Dar a notícia da gravidez a mulheres que a desejam e a mulheres que não a desejam parece uma espécie de veneno que vai ser introduzido em pequenas doses no sangue [todos os dias]. Vai-se sentindo o amargo travo na boca e uma secura no coração. Sempre a relembrar a capacidade dos que não querem perante a incapacidade dos que querem.

Quando fiz o primeiro tratamento de fertilidade, a bióloga que me acompanhou, ela própria, sofria de infertilidade. Por procriação medicamente assistida (PMA), conseguiu ter dois gémeos. Acredito que não teria sido fácil [em termos emocionais] resolver a infertilidade dos outros enquanto não conseguiu ser mãe.

Acredito que quem esteja na área da oncologia possa passar pelo mesmo. Ou a impotência de um profissional de saúde que sabe que sofre de uma doença que será incapaz de curar.

Às vezes, tendemos a ver apenas o nosso problema, quando há quem nos ajude neste caminho com problemas ainda piores que os nossos. 

1 comentário:

  1. O nosso umbigo tapa-nos muitas vezes as vistas para os problemas dos outros...não deveria ser assim, mas infelizmente é (e contra mim falo...)

    Beijos*

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