terça-feira, 29 de dezembro de 2015

carta

                                                                                  28 de Dezembro de 2016

Não estranhes se te escrevo. Sei que as cartas já há muito estão em desuso, mas esta parece-me a melhor forma de te relembrar algumas coisas. Gostaria de acreditar que, neste último ano, foste capaz de manter vivas na memória algumas das tuas resoluções.
Prometi que te escrevia e estou eu agora a cumprir. No tempo certo. E tu, que promessas a ti fizeste e cumpriste?
Sei que anotar resoluções de fim-de-ano numa agenda ou caderno bonito não te fazem cumpri-las. Deixa la, não és a única. És péssima a respeitar-te. Cumpres a letra as promessas que fazes aos outros. Contigo fazes batota.Ou será que mudaste?
Calculo que ainda mantenhas uma espécie de vergonha por leres coisas tuas, que escreveste no passado. Ainda guardas diários só porque sim. És incapaz de os abrir e ler algumas passagens que escreveste. Como se escrever te fizesse esquecer dores, promessas, sonhos e loucuras as quais não queres voltar mais. O teu mundo parece muito mais objetivo depois de despejares palavras. Espero que já te permitas falar do teu sofrimento sem o desvalorizar só porque os males dos outros te parecem mais difíceis de suportar. Não é egoísmo falares do teu sofrimento. Sabes que as pessoas acham que és invencível? Quantas vezes ouves as pessoas dizerem que não seriam capazes daquilo que tu consegues fazer sem vergar? Porque sempre te vêem com um sorriso nos lábios. Nunca te vêem lágrimas porque passas o tempo a querer escondê-las.

Estou eu para aqui a falar, mas ainda não sei como foi o teu último ano. Ou melhor, eu talvez saiba, mas gostaria que me falasses dele. Precisas que te relembre dos teus pensamentos nos últimos dias de 2015?
Será que voltaste a encontrar um emprego que te faça verdadeiramente sentir bem? Tu gostas demasiado da tua zona de conforto, e mesmo estando sofrimento, tens medo de pisar terreno desconhecido. Receias ficar pior do que o que estás.Espero que desta vez tenhas conseguido. Vi-te responder a alguns anúncios. Senti medo nesse teu passo. Sei que o teu salário era bom para os dias de hoje, regalias que poucos têm, prémios e gratificações que já poucos sabem o que é. E o resto? Qual era o preço a pagar por tudo isso? Sabes bem que era alto. Muito alto. As pessoas com quem trabalhavas acusavam-te de perfeccionista. Tu sabes que não era só isso. Sempre achaste que era melhor prevenir que remediar. A tua capacidade de ver para lá do visível sempre fez confusão às pessoas. Houve alturas em que gostarias de não ter uma sensibilidade tão apurada. Oxalá já não estejas constantemente a ver emails, a responder, a dar indicações para que nada falhe. Os outros precisam de errar para aprenderem. Mesmo sobrando para ti. Estou crente que agora só vês o mail profissional na hora de expediente e que desligas o telemóvel quando estás de férias. Penso que, no fundo, suspeitaste que o último tratamento de fertilidade tenha resultado num aborto por causa do nível de stress no regresso ao trabalho. Deixa isso. Não te apoquentes. Já passou.
Já voltaste a ser chamada para novo tratamento, mas desta vez recusaste. Admiro-te pela coragem. Podias pensar nisso como mais uma oportunidade, mas prometeste a ti e ao C. que não querias passar por tudo outra vez. Pela violência do percurso. há que ser sensato e não insistir. Acho que já começaste a interiorizar que não poderás concretizar o teu sonho de ser mãe. Foram muitos anos a tentar, com e sem ajuda. Todos os dias vais descobrindo maneiras de serem felizes. Nem tudo na vida está ao nosso alcance. Com esta tua consciência, espero que tenhas feito as pazes com Deus.
Por falar em felicidade, como foram as férias este ano?Andavam a pensar em fazer um cruzeiro. Espero que não se tenham decidido por locais com história. Conheço-te. Acabas mais cansada do que se estivesses a trabalhar. Nunca queres perder pitada. Não pode ser. Tomara que tenha ido avante a ida às ilhas gregas. O C. começou a falar-te nisto para te afugentar a tristeza e pareceste receptiva à ideia. Ou a Jamaica ou Republica Dominicana, como te chegou a falar o teu irmão no final do ano.
E livros? Conseguiste ler bons livros?Admite que, no ano passado, leste muito, devoraste livros, mas muitos deles eram uma verdadeira mediocridade. Faziam-te flutuar o coração, mas eram tão fraquinhos. Talvez fosse uma forma inconsciente de fugir a realidades pouco cor-de-rosa. De tornar mais leve o sacrifício em que se tornou a tua vida. Não ter sonhos tornou a tua vida tão pesada.
Aposto que conseguiste reduzir o stress e a ansiedade. Espero que tenhas cumprido a promessa de fazeres mais programas para relaxar, de conheceres lugares bonitos, de conseguires dormir mais e ate mas tarde.
Tinhas vontade de começar a dar um uso mais frequente à tua bicicleta. Conseguiste? Com a nova pista para ciclista feita no final do ano passado às portas de casa, espero que não tenhas arranjado desculpas , mantendo a bicicleta encostada à parede da garagem.
 
Com um corpo mais são, espero que tenhas ganho confiança para te preocupares mais com a tua imagem. Gostares mais de ti. Andavas esgotada há muito tempo, que o teu corpo só trabalhava em serviços mínimos. Ainda bem que decidiste fazer algo a esse respeito.
 
Como vês, nem eram assim tantas as tuas resoluções de ano novo. Logo, não deve ter sido muito complicado cumpri-las, pois não?

o teu eu do futuro


3 comentários:

  1. Um texto que nos deixa de lágrimas nos olhos e s sabermos o que dizer...apenas que tenhas a coragem de fechar a porta a um sonho muito desejado e que sejas feliz.
    Um abraço de quem andou também alguns anos perdida atrás do mesmo.

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