sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Fim

Ela já se aborreceu comigo por diversas vezes, por lhe dar a  minha opinião (era isso que ela pedia). Não estaria a ser amiga dela se lhe desse palmadinhas nas costas e lhe dissesse aquilo que ela queria ouvir e não aquilo que eu pensava.

De algumas das vezes, ela interpretou as minhas palavras da forma mais avessa e me acusou de ser eu a que estava mal na nossa relação. Ainda assim, usei daquilo que eu achava que seria humildade - hoje chamo-lhe, de caras, medo ou falta de auto-estima - e perdoei-lhe todas as coisas más que me disse. Chegou inclusivamente a fazer comparações entre mim e outra amiga - que a outra amiga era melhor que eu, por isto, aquilo, aqueloutro. Na altura doeu à beça mas ainda assim, passei por cima, e fiz de conta que nada aconteceu.
Ela ofende-se por tudo e por nada, faz leituras das minhas frases inscritas nas sms como lhe dá jeito. Porque a maior parte da nossa comunicação tem sido por sms, o que passei a achar (ainda mais) absurdo quando as chamadas passaram a ser grátis.
Casou-se no final do ano passado; uma semana antes, disse-me coisas medonhas que me fizeram cair num pranto. Encontrou-me o meu marido numa tristeza tão profunda mas recusou o meu pedido de não irmos ao casamento. Disse-me que a perdoasse. Eram os nervos do casamento, alegou ele. Fui magoada. Sentida. E tenho a certeza que lá no fundo ela sabe disso. Sou demasiado transparente para que não o soubesse. Fez questão de me dizer que tinha usado os brincos e a liga que eu lhe tinha oferecido. Não sei se este foi o seu pedido de desculpas.

Nos últimos tempos a comunicação passou a ser mais escassa. Mantive os sms - vários por semana- porque parecia que ainda era a forma mais eficaz (e cada vez mais indesejada por mim) de mantermos a relação à distância. Queria ter-lhe contado sobre o tratamento, queria ter-lhe contado sobre tantas outras coisas, mas ela demorava, às vezes, uma semana a responder a conversas que ela própria tinha iniciado. O tratamento correu mal, o aborto que se sucedeu, contei-lhe, já andava eu a tentar perceber que não era uma gravidez ectópica. achava-a demasiado afastada para lhe contar quando começou. Nunca recebi um telefonema dela... mas contou-me que andava a tentar engravidar, que o médico lhe disse que iria ser complicado acontecer. Dei-lhe o apoio que pude, que fui capaz.
Há pouco mais de um mês, depois de várias tentativas de lhe telefonar sem sucesso, manda-me uma sms a dizer que estava grávida. Felicitei-a sem cobiça, sem inveja, de coração. Fiquei triste que não me tivesse telefonado, para mo dizer, para retribuir as minhas chamadas não atendidas. 
Há duas semanas justificou-se que tinha coisas para arrumar em casa e jantar para fazer, que acabava tarde e que não tinha podido ligar-me. Dei-lhe abertura para me ligar fora de horas... ontem recebo uma mensagem a dar as mesmas justificações. Sem saber o que lhe responder, não lhe disse nada. Hoje perguntou-me se eu tinha recebido a mensagem. Perguntei-lhe o que queria que lhe respondesse. Será que não tinha cinco minutos para a nossa amizade. e eu estivesse mal? alguma vez ela se questionou que podia ser o caso?

Disse-lhe que estava triste e os muitos porquês, nenhum que incluísse alguma inveja minha. Ironicamente, mais uma vez a conversa foi por sms, porque ela não me deixa outra alternativa. Soube logo responder a dizer que estava muito triste comigo, que eu devia ficar contente por ela ter conseguido engravidar - não sei onde ela foi buscar que eu não estou contente, não vivo com o mal dos outros, nem a infelicidade dos outros me vai fazer engravidar. 
Perdi o medo ou ganhei um pouco de amor próprio e hoje, desisti desta amizade que me estava a fazer mal que bem. Gostaria muito de lhe acompanhar a gravidez, de a visitar, de lhe fazer coisinhas para o bebé, de fazer parte desta nova vida dela. Mas quando sou acusada de coisas que me deixam de alma partida, mais vale desistir.

Até agora tenho pensado que sou má pessoa, má amiga, má mulher por todas as palavras que ela usa para me acusar disso. Mas hoje isso não resultou. Tenho amor-próprio e nunca desejei mal a ninguém. Menos ainda, aos amigos. Sinto-me revoltada com mulheres que não têm condições para ter filhos e ainda assim, os conseguem ter, mas nunca deixei de ficar contente porque há uma gravidez de uma pessoa próxima. Se isso é o mais próximo que eu consigo de uma gravidez, então devo ficar feliz.

Hoje foi o fim de uma amizade que, um dia, já teve esse nome.Ultimamente só tenho tristezas a somar aos meus dias. Que me deixa triste, sem dúvida. A ver se, pelo menos, não me derruba. Que me faça ficar mais forte.




12 comentários:

  1. Às vezes o melhor é afastarmo-nos e seguir com a nossa vida , segue e frente com a cabeça erguida .

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    1. carla capricho,

      obrigada pelo teu comentário.

      Das outras vezes que me magoou, talvez eu achasse que não devia abdicar de uma amizade de tantos anos. devia lutar.

      agora sinto-me preparada e sem qualquer culpa por não ter feito mais. A indiferença mata amor, mata amizade. e a amizade foi sendo golpeada aqui e ali, sem dó. não resta nada. continuo a desejar-lhe todo o bem do mundo, como a infelicidade dos outros a mim nada me beneficia. Mas não darei nova oportunidade. há caminhos que não tem saída.
      saio sem remorsos nem maus sentimentos. há que seguir em frente e sendo o mais justa possível comigo mesmo.

      Bom fim-de-semana.

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  2. Há muitos anos atrás, um amigo disse-me uma frase que nunca mais esqueci, Alice: "O que tenho era para mim, o que não tenho é porque não me fazia falta." Na vida, fica apenas o que tem que ficar!
    Um beijinho!

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    1. Maria XL,

      é isso mesmo. fui ficando triste à medida que fui suportando a indiferença. neste momento, sinto me tranquila e de bem com a minha consciência.o que ela pensa é lá com ela. porque eu fui leal comigo mesma. esta amizade se tivesse que ficar, ficaria de qualquer jeito.

      não gosto de perdas. mas largar o que nos faz infeliz é aliciar um pouco a carga da alma,

      bom fim-de-semana

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  3. Quando algo nos faz mais mal do que bem, há que parar. Não te martirizes, cabeça erguida e segue em frente. Beijinho Alice

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  4. Fica o que é verdadeiro permanece. Seja na amizade ou no amor. Por vezes as relações precisam de um tempo de afastamento para serem pensadas. Se essa amizade precisar de um tempo, assim será. Se morreu de vez, também assim teve de ser. Eu sei que doi, mas ultimamente em relações às relações que têm o seu fim, tenho procurado não fazer um cavalo de guerra. Estou a esforçar-me por aceitar o bom e o mau que vai me acontecendo na vida. E ficamos sempre mais fortes! Coragem está bem? Um abraço.

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  5. Desistir de uma amizade custa sempre. Sei bem o que isso é quando a pessoa se afasta, nos ignora e no fim de algum tempo diz que a culpa é nossa e vira tudo o que nós temos contra nós. Porque nós, que ligamos sem obter resposta, que nos preocupamos e perguntamos, nós somos as culpadas.
    Fizeste bem, a amizade é suposto ser boa para as duas partes, é suposto trazer alegria e quando apenas traz coisas más é melhor ficar sem ela.
    Custa decidir sair da vida dessa pessoa mas tens de pensar que foi ela que fez de tudo para que tu tomasses essa decisão...
    Força e beijocas docinhas com sabor a chocolate*

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  6. Olá Alice, cheguei aqui há algum tempo pela querida Jardim de chuva prateada e tenho visitado o blogue em silêncio. Lamento a perda que tiveste no inicio do ano penso e comento apenas para dizer que percebo a tua perda agora, pois passei por algo semelhante com uma amiga de há muito anos. A nossa amizade ainda não acabou mas não é a mesma e sinto que andei anos iludida. Penso que o importante é sentir que fizemos tudo, que a consciência está tranquila e às vezes o melhor mesmo é deixar ir, mais do que persistir no erro de continuar a tentar quando tal só serve para nos magoar ainda mais. Um beijinho grande por tudo o que tens passado nos últimos tempos

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  7. O que não nos faz bem ... é melhor deixar para trás ... beijinho mto grande.

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  8. Olá Alice! Fizeste muito bem, embora seja natural ficares triste com o fim de algo que já foi amizade, agora já não é. Esse comportamento dela, só ficar contente se a bajulasses, se andasses atrás dela, e culpando-te a ti de tudo, meu Deus, não posso com gente assim!Não tem tempo para ti e ainda te acusa disto e daquilo, francamente! Fizeste muito bem, segue o teu caminho apenas com as pessoas que te fazem bem! Beijinhos e continua a ser cada vez mais confiante! Dina.

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  9. quando as amizades nos deixam mais tristes que felizes não valem a pena. Os amigos não humilham, não ofendem.... Os amigos cuidam, os amigos são presentes (mesmo com muitos km de distancia)... Diria que fizeste bem, pensa em ti por uma vez que seja nessa suposta amizade...

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