quinta-feira, 7 de abril de 2016

isto de escrever num blogue e não só... [regresso aos posts longos e menos parvos. espero eu]

Não sei se já contei que, quando comecei a ler, a professora da Escola Primária achava que eu não sabia ler, e atrasou-me na leitura. Ler e escrever são actos que andam de mão dada. Portanto, avizinhava-se um mau futuro na aprendizagem da língua materna.
Possivelmente, foi o facto de ter de lutar para me pôr ao nível dos demais colegas, que comecei a gostar de escrever muito cedo.
Mais tarde, percebi que a escrita me refreava a solidão. A maior parte dos diários que tenho [ainda os guardo numa caixa cor-de-rosa, bem grande, mas recuso-me a lê-los], são textos com data e com remetente, em forma de carta, a uma pessoa que não existe, mas que me ajudava a personificar os textos. O nome da destinatária das cartas foi escolhido por forma a que fosse o de alguém que eu não conhecesse com nome igual. (Acho que isto daria pano para mangas à minha psicóloga).
Deixei de escrever diários, meses depois de começar a namorar com o meu marido [tinha 19 anos]. Ainda tenho o relato escrito do primeiro beijo ou do pedido de namoro [coisas de miúda com paixonite aguda]. Sou agora incapaz de escrever um diário em papel. Já tentei e sinto-me mais perdida em escrever à minha personagem das cartas.
Cedi ao mundo dos blogues, por causa de uma fase estranha, soturna, na minha vida. Uma fase de solidão,  tristeza e de paixão também. Sabe-se que a paixão não é certa, traz-nos a inconstância dos estados de alma.
Tudo começou com um blogue com nome de doce - continuo a gostar do nome, apesar de já ter acabado o blogue. Há quem me acompanhe aqui, que já me acompanhava lá... Foi uma fase agridoce da minha vida. Porque alguém me aguçou a vontade de escrever. Por causa de cartas "electrónicas" trocadas, com muitas mensagens nas entrelinhas com alguém que ainda continua a ser especial. Ajudou a passar uma outra fase difícil da minha vida. Onde cheguei a desacreditar-me por completo.

Um blogue permite juntar tanta coisa que não somente palavras - podemos por a música que nos dá gozo ouvir, ou a capa do livro que andamos a ler e juntar-lhe as nossas palavras. Em papel, teríamos de fazer recortes, fazer um arquivo, nem sempre seria bem conseguido. O blogue  foi o despertar para um novo mundo das letras. Foi como se tivesse hibernado e, de repente, o degelo tivesse acontecido. Como se a minha escrita tivesse ficado fossilizada e agora recebesse um sopro de vida. Para me sentir viva.

Tenho de admitir que, depois de escrever, recuso-me a reler as coisas escritas. Foram vividas, foram escritas, passaram, permanecem onde estão - no passado. Incomoda-me ler o que escrevi para trás, talvez porque sofro de muitos estados de alma em simultâneo e tenho sido - estou a  mudar, felizmente - muito castradora das minhas vontades e dos meus pensamentos.

Ainda há pouco tempo, tivemos uma reunião dos colegas que ingressaram comigo na Escola Primária; além de acharem que estava fisicamente igual à miúda daqueles tempos, lembraram-se do meu texto altamente filosófico - dizem eles- que escrevi na última prova de Português da 4ª Classe [não devia ser nada de extraordinário; não me lembro]. A professora, na altura, leu-o em voz alta. E eu nem sabia onde me enfiar. Um dos meus amigos, quando teve Filosofia anos mais tarde, diz que se recordou do meu texto, tanto tempo passado. Pensava eu, que nessa reunião, iriam aparecer fantasmas que havia de exorcizar, e afinal levei um banho na alma, varri a vergonha que achava que ia ter, e fiquei um pouco embevecida por a minha infância ser lembrada pelos outros, por coisas boas. A mim ocorrem-me coisas más.

Há umas semanas uma antiga colega da Escola Secundária fez questão de lembrar-se dos textos que eu bem escrevia - palavras dela, não minhas- a pedido. Voltei a ficar envergonhada.

Parece que as pessoas do meu passado me associam facilmente às letras... e eu fui para ciências e engenharia. Irónico, não é?
Aqui no trabalho, já por umas quantas vezes algumas colegas me deram a  sugestão de escrever um livro. Escrever por obrigação não é a mesma coisa. Nem me acho com dotes de escrita. É necessário ter a mente menos sobrecarregada do que a que tenho agora.
Quando alguém tem de fazer um mail mais elaborado, cheio de pormenores, lá me chamam, a pedir opinião para refazer o texto.
Acho que há pessoas com dotes fantásticos para a escrita. Creio que, para uma escrita fantástica também faz falta viver. São os pormenores da Vida, o que lemos, o que sentimos e o que observamos que apura a escrita.
Ser escritor não é a mesma coisa que ser um bom contador de histórias. 
Uma história bem escrita pode não ser uma boa leitura para todos. Eu gosto de histórias enriquecidas com pormenores, daí os meus textos longos. Porque são fruto da minha observação ou do que sinto, ou um misto de ambos. Talvez porque tenha sido um pouco influenciada com a leitura de todos (os poucos) livros de Júlio Dinis. Li-os muito cedo, várias vezes, e isso também marca a escrita. Continuo a gostar muito deles e enfadam-me um pouco os mais conhecidos de Eça.

Escrever num blogue não é aspiração a nada. Escrever, na maior parte das vezes, é expor-me aos julgamentos dos outros. mas acima de tudo, é exteriorizar aquilo que nem sempre é fácil expressar por linguagem verbal.

[este post é uma cópia quase integral de um comentário deixado AQUI. Aconselho a quem gostar de ler e apreciar escrita, a ler mais uns quantos posts do blogue associado ao link. )

2 comentários:

  1. Revejo-me tanto, mas tanto no que aqui escreveste...

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  2. Olá, Alice.
    Por vezes, há dificuldades que inspiram amores.
    Sim, um blogue permite juntar muito mais que palavras. Acaba por ser mais aliciante que uma escrita em papel.
    Achei curiosa a sua "recusa" em ler escritos passados - mas, parece estar a mudar, é bom =)
    Escreve bem e há quem tenha isso em suas próprias memórias.

    * Aproveitei para dar uma olhadela no post do link.

    bj amg

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