domingo, 29 de maio de 2016

não é fácil ser-se filho. nem feliz quando se é velho

Percebi há algum tempo que talvez ele não ame o pai da mesma forma que amou a mãe. Ainda dizem que os pais e as mães não terão preferências pelas suas crias. Se acontece os filhos preterirem um dos progenitores, porque não o contrário?
Também já entendi que a irmã prefere o pai à mãe. Estou mais crente que seja uma das hipóteses seguintes: remorsos de ter sido uma ausente cuidadora da mãe ou o cheiro,ainda que nauseabundo, de dinheiro lhe continua a saber muito bem, que continua a desejar que caia na conta, sem que para isso veja deveres. 

Do lado dele sinto-lhe a falta de uma paciência (sintoma que nunca lhe julguei ver) para ouvir as repetições, vezes sem conta, de histórias passadas, de pedidos inusitados, de clamores a Deus do pai, que nos seus oitenta e quase sete, ainda se julga novo para ser visitado pela Morte. Consigo ler-lhe a pouca vontade de voltar à serra [um dia disse-me que queria ser sepultado junto da mãe, agora estranho-lhe este comportamento], numa obrigação de fazer o pai feliz por voltar às origens ainda que sejam dois dias, duas  a três vezes por mês. Quase quatrocentos quilómetros, somando a ida com a volta. Mais o número de vezes que o pai nos liga para saber a que horas chegamos e as reclamações que ouvimos se, porventura, temos de sair mais tarde de casa.

Do lado dela, ouço-lhe as mil e uma queixas de uma mulher que ainda não tem cinquenta, com alma de uma velha acima dos anos de Vida do pai, do dinheiro que lhe falta, da saúde que apenas não tem para aturar umas coisas e para outras parece tê-la. Desfia um rol de maleitas que lhe atingem a tiróide e o pulso. Fala-nos da menopausa como se fosse doença rara que lhe calhasse somente a ela. Aturo-lhe hipocondrías que deve acumular de carregar processos num hospital. Acabo por censurar-lhe directamente, com argumentos muito meus, essa vontade que tem de por o filho na rua, só porque ele quer emigrar. tento fazê-la pensar que o filho é quem lhe resta. [Não acredito que tenha reflectido sobre isso]. Ainda assim, vejo-a de quinze em quinze dias, com os cabelos, unhas arranjadas e maquilhada, capaz de me assinalar se estou mais gorda, ou que é por mero acaso, que visto algo que lhe agrada. Eu, ao pé dela, serei uma maltrapilha. Ela é uma pessoa tóxica em muitos aspectos.

No entanto, a ele consigo ler-lhe o orgulho de filho quando o pai lhe conta o quanto toda a gente gosta dele no centro de dia, da reportagem no jornal, da visita do miúdo que o pai levou pela primeira vez à escola e que ele quase adoptou como neto, das idas do pai à discoteca, promovidas pelo Centro, ou da peça de teatro ou nas marchas em que vai participar e convida o filho para ir. Ela nunca se interessou por nada disso. 

No meio disto tudo, eu assinalo-lhe a ele que precisa de ter paciência; a ela, relembro-lhe a idade do pai. Nenhum dos dois parece querer ouvir-me.
Eu continuo a acompanhar isto, também não sei por quanto tempo. Também perdi forças para estar em todo o lado, acudir a tudo. Sempre achei que as pessoas de idade merecem atenção e dedicação, mas não a qualquer preço

Em breve, serão os meus pais que poderão precisar, afinal não caminham para novos. Quero pensar que eu e o meu irmão sejamos sensatos sobre a velhice dos meus pais. Coisa que eu, às vezes, penso que não haja entre o meu marido e a sua irmã. 
Quando dois burros puxam para lados opostos, dificilmente sairão do lugar. 



2 comentários:

  1. Lembro-me de ser pequena e de as pessoas perguntarem 'gostas mais da mãe ou do pai?' e de sempre ter achado essa pergunta um bocado parva, mas dou por mim a pensar nisso muitas vezes e se há dias em que a resposta é uma, noutros é outra, mas não será tanto por mudança de opinião, mas mais por afinidade em algumas situações.

    Beijinhos*

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  2. cuidar dos pais é sempre muito muito complicado mas (salvo algumas excepções) merecem todo o carinho, atenção e respeito que pudermos lhe dar :)

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