quarta-feira, 15 de junho de 2016

as vidas e a morte na aldeia (ou mero exercício de escrita)

Ainda o homem tinha acabado de sentir o seu coração pela última vez, e já as más línguas avaliavam se mereceria o Céu, se o Inferno.
Enquanto não vinham homens de bata branca e bisturi em punho para lhe atestar a morte, já o cangalheiro da aldeia esfregava as mãos. Mais um, com muita sorte, lhe entregariam para amortalhar. Bateriam umas quantas notas de euro. O negócio já não era como no tempo do avô. Agora a aldeia estava povoada  por velhos que teimavam em viver. Pareciam ter feito pacto com o Diabo. No contrato com o Demo devia estar bem esclarecido o termo longevidade. Ao avô tinha-lhe bastado os sanatórios que albergavam tuberculosos. A ele, não lhe valia de muito dar nova morada aos mortos, por isso, contruía casas aos vivos. Bem vistas as coisas, nenhum dos negócios corria de feição. Eram já em pouco número os mortos, assim como os vivos bons pagadores ou com crédito bancário. Deixemos, portanto, o cangalheiro despir a farda de construtor; é sábado, o muro fica por chapiscar, há funeral para aprontar.

Entretanto, reúne-se a Irmandade com o padre; avaliam o livro onde está inscrito se o defunto tinha as quotas em dia e, portanto,  direito a missas, corpo velado por carpideiras, e subida à torre sineira para convocar o povo para a última despedida. Pelo menos, a celebração do sétimo dia será anunciada antes do pároco encomendar o alma, umas horas mais tarde. Restantes celebrações hão-de ser proclamadas e afixadas já nos finais de cada eucaristia dominical a que o ano ainda vai assistir.

O coveiro deixará animais por tratar, erva por ceifar, campo por lavrar e virá delinear quase milimetricamente sete palmos de terra. A par com os bens e os conhecimentos, herdou do pai esta ocupação em part-time. Ainda que comece a ser cada vez mais raro largar os afazeres da lavoura, para esta certeza da vida que é morte, a enxada estará sempre a postos. Ficará guardada no dia que o pai partir, certamente.

Na igreja, os lugares ficam todos ocupados, as hóstias não chegam para os pecadores confessos e confessados; vale ao padre a reserva do sacrário. Normalmente, só se socorre dele em alguns domingos do ano, em que a assembleia parece constituída por mais crentes que o costume. Ou isso, ou a administração de sacramentos que lá chama mais uns quantos.
Vem a aldeia em peso, muitos velhos, escassos novos. Vem o deficiente mental que teima em acompanhar os que já partiram. Sai o cortejo, homens  vestidos com capas e ao topo um porta estandarte.
A vida terminou ali para um e continua para todos os outros. Do defunto já se sabe. Para o cangalheiro o dia está feito. De voltar à betoneira e ao cimento na segunda, pois o sol já se pôs. O coveiro ainda vai reunir as ovelhas, assobiará a uma mais tresmalhada e irão ecoar, entre as montanha, meia dúzia de palavrões dados a uma vaca mais arisca.
As velhas rezarão as avé marias e os pais nossos para liquidar a dívida da Irmandade.
O padre irá preparar a celebração matutina, as outras quatro que se seguirão serão cópia, mais palavra, menos palavra pregada na homilia; menos hóstias distribuirá do que as que acabou de dar. Espera-o  serão em casa das manas solteiras, para tertúlia cultural. Os mais mal intencionados haviam de desenhar um sorriso amarelo, insinuando coisas pouco próprias. Aos padres nunca será compreendido o celibato.
Para casa irá um homem, velho, já perto dos noventa. Pensará que a morte lhe levou mais um companheiro de jornada, mais novo.  Significa que a morte vai estando cada vez mais perto. Quer afugentá-la. Quer viver mais trinta anos. Pelo menos. Ainda está novo, lúcido, ainda conduz e agora reza mais vezes o terço; nunca fiando, há que precaver. Se o cancro vem dos frangos de aviário ou dos peixes de aquacultura, pensou antes, é melhor manter a morte longe e não comer nada dessas coisas. Escrutina cada prato que lhe colocam à frente.
 Dizem que o amigo foi levado pelo enfarte do miocárdio; corre à prateleira para alcançar o livro das Selecções do Reader´s Digest, ler e cumprir à risca.  As 10 regras de ouro para manter um coração saudável vão ser leitura assídua alternando com versículos escolhidos da bíblia.. Tem a certeza que, desta forma, a morte ainda vai ficando longe. Recusa este destino tão certo que é a morte.



2 comentários:

  1. Isto está muito bonito.
    Foi tudo escrito por ti?

    Tá para lá de bom.

    ResponderEliminar
  2. Muito bom!! Conseguiste pôr-me a imaginar toda a cena e a querer saber mais sobre essas gentes!

    Bom fim de semana

    ResponderEliminar

Tens alguma coisa para dizer? Obrigada por partilhares! ;)