A ideia de sair do emprego não era nova. Era uma ideia
adiada. Viver agarrada à ideia que precisava do emprego para concretizar sonho(s)
era só forma de me ancorar ao certo, ao fácil, ao controle, caso algo corresse
mal. Afinal, ter um filho a quem se pensaria dar tudo era, para mim, condição
suficiente e necessária, para manter o sustento sem solavancos nem travagens bruscas.
Já há demasiadas coisas simples a subtraírem minutos ao meu
sono todos os dias. Se pensava em trazer alguém ao mundo então tudo deveria ser
bem calculado, medido, pensado ao mais ínfimo pormenor.
Preocupei-me demasiado em aconchegar um sonho em camas de
algodão fofo e sedoso, que tudo o resto foi descuidado. Os outros [sonhos] foram
sendo descuidados, apagados da memória, subnutridos até serem deixados morrer
por incúria de mim mesma.
Esta semana comecei a enviar CV e até tive uma proposta de
entrevista no mesmo dia.
Retraio-me em candidatar-me a umas quantas coisas, em dar conhecimento
a conhecidos do meio sobre a minha vontade em mudar. Revejo os pontos do perfil
traçado para cada emprego e nunca me acho à altura. Nem sei se me subestimo, se
me acho cheia de imperfeições. Acobardo-me e não respondo a este ou aquele por
medo da má figura, da redução à insignificância. Agarro-me ao desconforto de um
emprego em que tenho o que me baste menos qualidade de vida em contraposição ao
desconhecido.
Nestes últimos meses [antes sabia mas negava-o] percebi que
morri por dentro, há tanto tempo, que só agora vou dando conta. Foi preciso ter
a noção que os pais não duram para sempre, os casamentos nem sempre são felizes,
os amigos não são quem julgamos, que não tenho nada a fazer-me acordar com o
sangue a fervilhar de excitação. Fico alheia a olhar tudo, mas só resta um
vazio que fui sufocando para que não gritasse de dentro aos que vivem no meu
mundo de fora. Agrilhoou-se uma negra e pesada escuridão cá dentro com mentiras
sorridentes de que tudo estava bem. Confrontavam-me
com uma realidade a que eu contrapunha exemplos de que tudo podia ser pior. Que
estava tudo tão bem que negava a mudança. Hoje reconheço que a única pessoa a
quem vou sabendo enganar muito bem é a mim mesma. Tornei-me pródiga numa
mentira. Tornei-me prisioneira dos meus medos. Afinal sou conduzida não por
sonhos mas pelo medo.
A realidade, há um par de dias, tornou-se uma masmorra com
paredes movediças que se vão aproximando do meu corpo, estreitam o meu campo de
visão e empurram o meu foco que isto que faço todos os dias não é nada. este
autómato em que me tornei sofre agora de uma cansaço da rotina. O casamento, o
emprego, algumas pessoas tornaram-se um fardo tão pesado em certos momentos,
que eu já não caminho erecta. Vivo corcovada, numa agonia de mais um dia igual
ao outro, disforme e sem futuro.
Em momentos de alucinação, sinto a imaginação a injectar
adrenalina nas veias e dar forças a um salto para o impensável, para o risco,
contra o medo. E depois volto a morrer dentro de mim mesma, por viver do medo de
não ser capaz.
Até quando aguentarei? Até ao dia em que fizer uma asneira
que nunca conseguirei justificar. E todos me vão julgar por ela…
Muitos de nós sentem-se assim, exatamente assim, mas não têm a força necessária para admitir isso, quanto mais de mudá-lo. Acho que o passo principal está dado: há uma realização daquilo que sentes e sabes como mudá-lo. Agora é seguir sem medo!
ResponderEliminarEste texto fez-me pensar. Li duas, três quatro vezes.... Podia ter sido eu a escrevê-lo. Dexo um beijinho de coragem.
ResponderEliminarHá momentos na nossa vida em que tudo se vira de cabeça para baixo e aí tudo muda pelas condicionantes que a vida nos impôs e nós somos obrigados a mudar e a adaptar-nos! Noutras vezes temos de ser nós a perceber que a mudança pode partir de nós e o salto para o vazio apesar de parecer avasalador, traz-nos aquele "sangue a fervilhar de emoções" e redescobrimo-nos!!! Beijinhos grandes força para seguires a tua jornada com fulgor! <3
ResponderEliminarter essa consciência é o primeiro passo, o segundo é a atitude, a ação e a coragem para mudar a página. força Alice, olha que só se tem uma vida....
ResponderEliminarMais um que podia ter sido escrito por mim.
ResponderEliminarComo vão as coisas 2 anos volvidos?