Quem nunca ouviu dizer que o amor não escolhe idade? E
acreditamos verdadeiramente nisso?
Ou quando nos acontece, ou aos que nos são próximos, mudamos de opinião
porque passamos a contar também com os preconceitos para a equação?
Quando escrevi este longo post, tinha lá implícito que, apesar de
obviamente querer que o meu tio seja feliz, um pequeno preconceito associado envenena
isso.
O conflito de emoções nem sempre nos faz aceitar as coisas tão
bem quanto desejaríamos.
As pessoas na terceira idade não podem ser condenadas à solidão.
é certo. Quando olhamos para o meu tio, achamos que ele já devia ter idade para
ter juízo.
Mas, no fundo, custa-nos pensar que a pessoa que foi sua
companheira durante anos, de repente, veja o seu lugar tomado. Como se ficasse
esquecida.
Passo a explicar com outra
história.
O meu sogro vai a caminho dos noventa; para o ano, esperamos que
os faça e com saúde. Ditou a vida que ficasse viúvo há quase dez anos e há dois
deixasse a casa dele e, durante o dia,
frequentasse um Centro para idosos. Onde os idosos são tudo menos isso.
Felizmente.
O centro promove muitas actividades e mantém pessoas como ele
muito activas. Temos gostado muito que assim seja. Vemo-lo feliz. Vamos às
festas como fazem os pais no final do ano lectivo dos filhos, só que ao contrário:
os filhos vão ver os pais.
Sabemos que a sua atenção foi muito disputada entre duas
senhoras lá do centro. Mas a má língua de uma, fez a outra ganhar a disputa.
Cresceu a amizade. (Nós víamos isso assim, sem maldade; sabemos agora que há
marotice da parte dela)
As funcionárias lá do centro resolveram fazer-lhes o casamento.
vestiram os noivos. houve padre (a brincar) e tudo.
Mais tarde, ele avisou o meu marido que podíamos ver o vídeo.
acho que foi para ver a nossa reacção.
Ainda não tínhamos tido oportunidade de ver e, anteontem,
assistimos. e ficámos os dois calados. aquilo custou-nos aos dois.
Eles não são dois meninos que estão a brincar de casamento para
os restantes assistirem. Caiu-nos muito mal.
Acho que ele acedeu a fazer aquilo por ser muito brincalhão, mas
nós já não conseguimos ver a situação dessa forma.
Vamos recebê-lo este fim-de-semana lá em casa. Já falámos no
assunto entre nós e não vamos comentar nada.
Mas, de repente, sentimos que ele consentiu aquilo, mesmo vendo
no casamento uma instituição sobre a qual não se deve fazer piada. Como ele
defende isso!
Ficámos os dois em silêncio e sentimos que foi como se a sua
verdadeira mulher deixasse de ser o grande amor da vida dele.
E o nosso conceito de amor ficou mesmo abalado. como se o amor não fosse para a vida toda...
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