Outra vez vidrinho de cheiro
Já passei por alguns desertos sozinha. É-me mais fácil resolver as coisas assim.
Os meus pais nunca terão dado conta das minhas crises de adolescente. E tive tantas.
O meu pai achava que, ao proteger-me do mundo exterior, não sofreria perdas. Protegeu-me por ele, não por mim. Não me deixou viver, com medo que me acontecesse algo.
Hoje digo isto sem medos que o julguem, que digam que é mau pai. Mas escondi todos estes anos que estávamos longe de ser aquela família perfeita. Os meus amigos, por não me ouvirem dizer nada, achavam tudo perfeito. Nunca falei nada do que se passava em casa. Do quanto eram difíceis as discussões sempre que tentava por alguma rebeldia ao serviço da liberdade.
Quando tive asas, voei. Muitos anos de asas atadas não resultaram em voos muito longínquos. Eram voos muito calculados, curtos, para não perder de vista terreno conhecido.
Continuo a ter a postura de passar desertos sozinha. A melhor forma de eu lidar com os problemas é tentar resolvê-los sozinha. São intensas negociações dentro da minha cabeça. Para que tudo se resolva da melhor forma, principalmente sem grandes perdas. Talvez este tenha sido um comportamento aprendido com a protecção do meu pai. Assumo que acabo por ser um tanto ou quanto controladora dos riscos, e que isto me traz muitos dissabores.
O que não vivi no tempo certo, aumentou a intensidade do sentir agora.
Estou nesta fase da crise da meia idade. Está a ser mais difícil que a adolescência. É natural que sinta que tenho outros desertos a atravessar. E as pessoas não estão habituadas a que eu fale nas minhas dificuldades. e eu continuo sem querer falar. e quando falo, [ainda que pela rama] estranham.
Estou outra vez a tentar ser protegida e também não está a ser fácil lidar com isso. Há muito que me afastei do controlo do meu pai, mas ainda andam cá resquícios desse tempo.
Agora é o meu irmão.
Agora é o meu irmão.
Se o meu irmão me liga e eu uso um tom de voz pouco alegre, ele põe logo em causa se eu estou bem. questiona vezes sem conta o que se passa. Se não lhe respondo a uma mensagem logo, é porque está a acontecer algo menos bom e que eu preciso de ajuda. Mal posso dar um suspiro e entra em estado de alerta. Fica mais aflito comigo do que com os dois filhos que tem em casa, a quem não protege tanto.
Não lhe posso dizer que ando a fazer exames médicos que sou logo bombardeada com perguntas.
Percebo que me queira proteger mas não me pode tratar como vidrinho de cheiro. Eu não vou partir-me com as adversidades da vida. Já fiz os meus desertos sozinha. É difícil fazê-lo entender que eu tenho que passar esta crise pelo próprio pé. Não pode ser ele a levar-me ao colo. dele preciso de abraços, nos dias em que vou com o joelho ao chão. sem perguntas nem julgamentos.
Já disse que adoro o meu irmão? Amo de paixão. Mesmo. Não me vejo sem ele. E acho que ele está a levar demasiado a sério isto de não se ver sem mim. Mas não pode ser ele a lidar contra os dragões e serpentes dos meus desertos. Isso só me fragiliza.
Proteger não é o mesmo que cuidar. Logo ele que até é apologista que as pessoas ganhem defesas.
Podia ter sido eu a escrever este texto. Com um pouco mais de agraves, talvez. Só não coincide o irmão - que sempre quis ter. Exatamente por suspeitar que teria uma relação de suporte, desabafo e apoio.
ResponderEliminarPena as asas cortadas... O mal que faz sente-se para a vida toda mas torna-se muito complicado lidar com as consequências quando chega a meia-idade. Se as pessoas não estão habituadas que fale dessas coisas, é porque aparenta ser bem disposta e resolvida. Isso significa que se afastou a tempo. Demasiada exposição leva até isso.
Portuguesinha,
EliminarAcho que ser bem disposta até sou. Quanto a ser bem resolvida, não sei, tenho sérias dúvidas...