Se renasço a cada momento

Nos últimos dias tem voltado a passar uma música da Mariza que já há algum tempo não ouvia. Marcou um período de mais ou menos um mês e meio - um ciclo de tratamentos de fertilidade, talvez o penúltimo. é provável que, na altura, a tenha postado, por me dizer muito, por me ter dado força naquela altura. Lembro-me o quanto força me deu no início e o quanto permitiu que eu purgasse a minha dor, quando o Beta-HCG deu negativo, mais uma vez. Vínhamos os dois no carro, a música a tocar no rádio do carro e silenciosamente as lágrimas caiam-me pela cara abaixo enquanto ele pegava na minha mão, como uma forma de me dizer que estou aqui, vamos em frente. Ainda veio outro tratamento, o último, que quase estive para não fazer para não passarmos pelo mesmo, e a música ligada a este último já era diferente. Lembro-me bem qual. Agora não interessa.
A mesma música da Mariza veio outra vez agora, passados mais de dois anos ou três, já nem sei - e não quero ir lá atrás ver o que escrevi - numa fase completamente diferente da minha vida. Fez-me reflectir. Tenho-o feito nas últimas quarenta e oito horas com algum distanciamento. Ser juiz em causa própria, é complicado.

Talvez fizesse sentido fazer o balanço deste meu ano lá para o final, mas sinto que é bom fazê-lo agora. Tenho alguma lucidez para olhar para trás e avaliar.

Estou numa fase boa da vida, não sei até quando, mas por isso a estou a viver com tanto entusiasmo, empenho e força. Não sei quando voltarei a cair e portanto, é melhor aproveitar. e tenho tido tanta gente boa à minha volta. que me quer bem. que se orgulha.

Aparentemente, ou que o saiba não estou doente - já começo a ter umas mazelas da idade, mas fazer o quê? Só por isso, estou tão grata! continuo a sentir-me como uma miúda de 25, não me sinto velha, nem em espírito nem em corpo. Quero pensar que os 42 só aparecem no cartão do cidadão. ;)

Passei os primeiros seis meses do ano a tentar encontrar-me ou conhecer-me melhor e perceber o que me tornava tão emocionalmente desequilibrada. Não vou dizer que não tenha altos e baixos. Continuo a ter uma espécie de movimento harmónico de humor, contudo ele faz parte intrínseca do que sou. de como sou. Simplesmente a distância entre os altos e baixos foi encurtada. 
Vivi muitas paixões no primeiro semestre; e em cada uma delas encontrei reflectidas o pior daquilo que era, o que me fazia sofrer perante as expectativas que tinha perante as coisas e pessoas. Vivi o lado contrário de mim mesma e provei um veneno que me conseguiu modelar e moderar alguma da minha personalidade. A vida, no primeiro semestre, foi feita de grandes lições, umas melhores que outras. teve muitas coisas boas e algumas que prefiro não voltar a elas. 
Encontrei apoio e força em quem eu nunca pensaria que seria possível, foi  minha alavanca para algo melhor. Hoje é uma das pessoas por quem nutro mais carinho embora por muito que lho diga, nunca me leve a sério. Oxalá a nossa amizade se possa manter apesar das vicissitudes da vida, além de outras barreiras, como a distância. Estarei muita grata e, apesar de eu ser uma pessoa que não precisa de muito para gostar de alguém, neste caso posso afirmar que me ficará para sempre no coração. Fez-me tomar a decisão de que aquilo que eu fazia por mim era pouco, muito pouco. Foi quem me deu o empurrão para a segunda fase - a que estou a passar agora: a da adrenalina, a dos desafios constantes, o de me mostrar o que valho e o que aguento.  e depois encontrei outras pessoas que verdadeiramente estão tão empenhadas quanto eu na minha felicidade. Ajudam-me a canalizar a ansiedade para coisas boas, ficar feliz com as conquistas. Se bem que estou sempre a falar no assunto e é capaz de ser chato! :) mas preciso gritar aos quatro ventos o quanto tudo tem valido a pena, e descrever cada dia, cada luta!

Como a pessoa de quem falei acima, por quem nutro o maior carinho do mundo acabou de me dizer: precisamos de pessoas boas à nossa volta. E eu acrescento:  e o melhor pode acontecer. Estive à espera de mim, e que é preciso perder, para depois se ganhar, como diz a música da Mariza:

Hoje a semente que dorme na terra

E que se esconde no escuro que encerra
Amanhã nascerá uma flor
Ainda que a esperança da luz seja escassa
A chuva que molha e que passa
Vai trazer numa gota amor
Também eu estou
à espera da luz
Deixo-me aqui onde a sombra seduz
Também eu estou
à espera de mim
Algo me diz que a tormenta passará
É preciso perder para depois se ganhar
E mesmo sem ver, acreditar
É a vida que segue e não espera pela gente
Cada passo que dermos em frente
Caminhando sem medo de errar
Creio que a noite sempre se tornará dia
E o brilho que o sol irradia
Há-de sempre me iluminar
Quebro as algemas neste meu lamento
Se renasço a cada momento meu destino na vida é maior
Também eu vou em busca da luz
Saio daqui onde a sombra seduz
Também eu

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