Hoje, o ambiente aqui não está tão pesado como nos dias anteriores,
porque não se debitam dados sobre o vírus a todo o instante. Acho que os
arautos costumeiros resolveram remeter-se ao silêncio. Talvez porque já não consigam
dar conta de todas notícias que vão saindo.
Estou aqui ensanduichada entre duas colegas que são a cara do pânico
em pessoa.
Uma delas, tem estado a perguntar-me de vez em quando, se estou bem,
pois suspiro pela imensidão de trabalho que tenho tido para fazer. Não sei para
onde me virar. Agora parei para respirar mais calmamente. Bem preciso.
Ontem saí um bocado contaminada por esta nuvem negra de
negativismo que paira aqui; lá venci o medo e parei na bomba para pôr ADBlue,
com as devidas precauções. Na verdade, estive a evitar a ida mas mais cedo ou
mais tarde tinha que ser.
Mortinha por chegar a casa e, mesmo com o lusco fusco, troquei rapidamente
de roupa, fones nos ouvidos, playlist previamente tratada e fui correr meia
hora. Não foi muito, nem a grande velocidade. A ideia é continuar a treinar a resistência,
para depois passar à velocidade. Na impossibilidade de ir para a ciclovia,
escolhi sítios onde sei que não andaria ninguém, mas custou-me um bocado porque
fiz imensas subidas, mas melhorei o tempo por quilómetro. Quando cheguei da
corrida tinha uma mensagem da colega psicótica, com um vídeo do Youtube sobre a
curva de crescimento exponencial do vírus. Não abri e mandei-lhe uma mensagem:
Eh, tenha calma!!! e larguei o telefone
do trabalho, até esta manhã.
Fiz ainda o desafio do dia: quantas flexões conseguia fazer num
minuto. Trinta e cinco. não foi mau, mas podia ser melhor. e por fim, o treino
de bum bum, proposto pelo ginásio. acabei morta e ensopada em suor, num colchão
de ginásio, no meio da sala. Hoje espera-me mais no treino funcional, outro desafio e a corridinha que espero conseguir fazer antes que seja noite.
No trabalho não consigo filtrar o que é dito e tenho que me
resignar a estar sujeita a todos os pregões. Decidi desde ontem que, mal esteja acabado o trabalho, não
quero saber de nada sobre o vírus. Quero ir respirar um pouco de ar – estou farta
de estar entre paredes – no meio do campo, onde nem gente há, e portanto o único
risco que há é a alergia ao pólen dos pinheiros. Quero correr, desafiar-me,
cantar, rir sempre que possível. Esquecer por horas que estamos debaixo desta
ameaça. Antes de vir trabalhar, estive a ver uns vídeos de humor. Ouvi uma playlist
catita enquanto tomava duche e o pequeno almoço. Cantei no carro no caminho
para o trabalho. Aproveitei até chegar, para me preparar para oito
horas de má onda. porque para desperdiçar calma, já me basta aqui.


