Contou-me o meu marido, um destes dias, que os colegas têm uma imensa curiosidade sobre os almoços/jantares que ele leva na marmita.
Tenho por hábito mandar-lhe comida o mais diversificada possível. O mesmo se reflecte na sobremesa.
Parece que não são raras as vezes que lhe cobiçam a comida. Há uns tempos, enviei-lhe tortellonis com o molho de tomate e requeijão à parte. Teve uma imensa plateia - para uma situação destas, ter três, quatro pessoas a olhar, é imenso - a assistir ao abrir das suas caixas da comida. Lá teve ele de partilhar porque houve quem nunca tivesse visto tal comida. Felizmente, que vai sempre bem servido ou, com tanta partilha, ficaria esfomeado. Mas, ainda na semana passada, quando lhe enviei uma pequena fatia de tarte caseira de noz, teve de a dividir por três tal era o ar de gula com que os colegas estavam.[Quero pensar que seria gula e não fome. Já lhe disse que, se lhe sobrar comida, que dê a um dos colegas que possa necessitar ou querer. Há muita miséria escondida...]
Ontem foi ele quem preparou o almoço dele; esta manhã juntei uma banana e uma caixinha plástica com uma sobremesa adicional que eu tinha feito: gelatina com iogurte. Como eu adicionei apenas dois iogurtes a um litro de gelatina, formaram-se nitidamente duas fases.
Hoje, ao almoço lá tinha a tal plateia, a tentarem ver que coelho tiraria ele da cartola. Colocou a banana ao lado da caixinha plástica, em cima da mesa. A caixinha com o conteúdo avermelhado, mas com duas fases, intrigou a plateia. A mulher das limpezas veio juntar-se ao grupo dos intrigados. Um deles saca da tampa e cheira, outro opina que parece ser gelatina, mas aquelas duas fases parecem não definir certezas. Outro ainda,e porque a confiança o permite, resolve ir buscar uma colher para provar.
Uma ideia parece crescer na cabeça do meu marido; ele, que é pouco dado a criar histórias rocambolescas, parece ter as circunstâncias a seu jeito.
O outro prova e continua sem perceber o que é: se fosse gelatina seria mais doce e não é, relata em voz alta.Volta a questionar o meu marido e a restante plateia sustém a respiração à espera da resposta. Ameaça o meu marido que me vai ligar (ele tem o meu número - quando meu marido não me atende o telefone é a ele que eu ligo!). O meu marido pede que não me ligue por eu estar numa reunião de trabalho. Resolve dizer que é um medicamento para limpar os intestinos e que a banana serve para que a coisa não se dê tão repentinamente, que aquele medicamento é coisa forte. O colega que provou diz que parece sentir uma leve cólica, volta a questionar o meu marido se aquilo é mesmo um laxante. O marido que dificilmente segura uma partida sem se rir, consegue manter a postura séria. A restante plateia retira-se rapidamente por se julgar que podem haver problemas e não vão querer assistir.
Entretanto, o marido resolve levar a partida mais longe enquanto o colega se começa a queixar de cólicas de maior intensidade. Avisa o colega que não quer fazer nenhum trabalho de ambulância com ele, porque se socorrer um doente já é complicado, imagine-se um colega com diarreia pronto a correr para a casa de banho. Mas lá vão os dois fazer um trabalho. No caminho para o hospital o colega provador insiste em querer saber o nome do medicamento para falar com um médico no hospital, não vá aquilo fazer-lhe mal. O meu marido diz que não se lembra. O outro queixa-se toda a tarde de cólicas e quando o marido saiu ainda não havia sido desfeito do mistério da mistela da caixa plástica.
O meu marido, agora ao jantar, primeiro que conseguisse contar a história, só se ria e foi impossível não me deixar contagiar pelas gargalhadas (e soube-me muito bem rir). Ainda não desfez a partida e quer levar amanhã última caixa de gelatina que há ali no frigorífico, para reforçar a ideia do medicamento (e rir-se mais um bocadito).
Acho que tão cedo não se vão pôr a expiar e a cobiçar a comida que ele leva. :) Não vá a curiosidade dar cólicas!
A nós, a gelatina com iogurte deu-nos uma tremenda dor de barriga de tanto rir.
A nós, a gelatina com iogurte deu-nos uma tremenda dor de barriga de tanto rir.