domingo, 24 de julho de 2016

balões de oxigénio precisam-se...

Tenho andado longe daqui e de outros locais virtuais que, habitualmente apreciava ler. Os emails acumulam-se neste endereço que associei ao blog. Tem havido pouco tempo, pouca vontade e uma energia há muito no vermelho. Não e por desinteresse que tenho estado longe, e por desequilíbrio mental. Querer escrever aqui ou numa caixa de comentários tem se tornado uma tarefa quase hercúlea. Escrever sempre um prazer para mim, mas tenho-me sentido incapaz de o fazer nos últimos tempos.
Tenho aceitado com alguma ansiedade os muitos acontecimentos que se vão sucedendo, mais desde Abril- outro Abril que se verificou agourento. Tenho muitas coisas pendentes neste momento que apenas requerem tempo- e Paciência - para que possam resolver-se. Apesar de tudo e cada vez mais, acredito - embora nem sempre aceite, em primeira instancia- nada acontece por acaso.
Embora almejasse deste o início do ano por umas boas e retemperadoras férias, não foi a possibilidade de um ultimo tratamento que as veio por em causa. Inicialmente acabamos que a resolução do problema de fertilidade ia comprometer as nossas férias, mas não foi isso que veio a acontecer. Não deixa, no entanto, de ser um problema (agora com outras complicações) que também povoa o nosso pensamento.
Não gosto de riscos não calculados.Achando sempre que consigo minimizar o que não consigo controlar, não contávamos que um de nos ficasse visivelmente doente. Ele ficou. Não será nada que implique risco de vida, mas e altamente incapacitante em termos de mobilidade. Afogar-me em trabalho tem sido um medicamento que tenho administrado em mim, para me ir deixando algumas partes do meu cérebro num estado de semi-consciência. Mas como diz o povo, se não se morre da doença, morre-se da cura. Preciso de alguns balões de oxigénio, para ir atacando as adversidades que parecem não nos deixar. Não estou nem quero ser dramática. Só me sinto muito cansada por correr muito e não sair do lugar. Seguro o mais que posso os meus medos dentro da minha cabeça para não o preocupar, para que viva com serenidade e complacência, esta sua nova situação de vida; só quero que tudo passe depressa, mesmo que já estejam quase quatro meses passados e tudo esteja fora do controle.
Possivelmente os quinze dias programados vão reduzir-se a um fim de semana. Nessa altura, com ou sem a cirurgia dele, vamos estar bastante limitados com a sua falta de mobilidade. Passaremos as minhas férias em casa. Estes ano gostaria de ter experimentado Cabo Verde.
[Questionou-me de que vale trabalhar ate quase cair para o lado e ganhar o dinheiro, se depois não tenho oportunidade de o gastar também em coisas boas?].
Estou muito necessitada de apanhar sol, dormir bem, descansar. Sei que ele quer que, sendo apenas um fim-de-semana, eu aproveite bem. Fico contente que ele se tenha lembrado de preenchermos três dias, apesar das suas limitações, a retemperar as minhas energias.
Se esse local existisse, eu quereria um bom quarto de hotel, com varanda para uma praia privativa e o mar logo ali ao pé. Mas isso será pedir um local que não existe... ou existe? Preciso urgentemente de um lugar assim.
[alguém me diz como fazer reset a minha cabeça? Ate ao final do ano vou ter muitas lutas para combater, isso e já uma certeza! Todos temos problemas, resta a cada um saber resolve-Los da maneira que melhor consegue.]

segunda-feira, 11 de julho de 2016

seis anos sobre o nascimento do meu amor pequenino e outras coincidencias (romper o silencio)

Tinha feito seis anos em Abril e a escola começaria nos primeiros de Outubro. Lembro-me bem da ansiedade que tinha em ir para a escola. Recebi uma mala de por as costas, rectangular, a imitar a pele, castanho alaranjada, com o desenho animado do momento: o indio sioux yakari (e só googlar, deve haver quem se lembre disso...). Foi um presente da minha madrinha. Ficou guardada durante meses, num armário da sala de jantar. Lembro-me de me pular o coração, cada vez que a ensaiava nas minhas costas, as escondidas da minha mãe. Ansiei peloo primeiro dia de aulas, durante quase todos os dias, entre Abril e Outubro daquele ano

A poucos dias do meu sobrinho/afilhado fazer seis anos, perguntei-lhe o que desejaria. Pediu-me para pensar. A mãe disse-me que era melhor ser ele a dizer. Dias depois pediu-me uma mochila dos Mínimos, o estojo e uma capa com dois elásticos. Perguntei-lhe se queria um brinquedo. Disse, veemente, que não.

Hoje o meu amor pequenino fez seis anos. Delirou com a mochila, o estojo, com a capa e com mais umas quantas coisas que lhe oferecemos. Esta ansiosa por ir para a escola, tal como a madrinha, há mais de três décadas.

Hoje dei-lhe um abraço bem apertadinho e recebi um grande xi-coração. Parabéns, meu amor. A madrinha adora-te.

(li a ficha da pré-primáriado meu sobrinho e sinto-me muito orgulhosa, por que também eu colaborei para algumas das coisas boas que lhe apontam).

P.S.- e hoje foi dia de comemorar também uma vitória: Portugal, ooooooooleeeeeeee!

quarta-feira, 15 de junho de 2016

as vidas e a morte na aldeia (ou mero exercício de escrita)

Ainda o homem tinha acabado de sentir o seu coração pela última vez, e já as más línguas avaliavam se mereceria o Céu, se o Inferno.
Enquanto não vinham homens de bata branca e bisturi em punho para lhe atestar a morte, já o cangalheiro da aldeia esfregava as mãos. Mais um, com muita sorte, lhe entregariam para amortalhar. Bateriam umas quantas notas de euro. O negócio já não era como no tempo do avô. Agora a aldeia estava povoada  por velhos que teimavam em viver. Pareciam ter feito pacto com o Diabo. No contrato com o Demo devia estar bem esclarecido o termo longevidade. Ao avô tinha-lhe bastado os sanatórios que albergavam tuberculosos. A ele, não lhe valia de muito dar nova morada aos mortos, por isso, contruía casas aos vivos. Bem vistas as coisas, nenhum dos negócios corria de feição. Eram já em pouco número os mortos, assim como os vivos bons pagadores ou com crédito bancário. Deixemos, portanto, o cangalheiro despir a farda de construtor; é sábado, o muro fica por chapiscar, há funeral para aprontar.

Entretanto, reúne-se a Irmandade com o padre; avaliam o livro onde está inscrito se o defunto tinha as quotas em dia e, portanto,  direito a missas, corpo velado por carpideiras, e subida à torre sineira para convocar o povo para a última despedida. Pelo menos, a celebração do sétimo dia será anunciada antes do pároco encomendar o alma, umas horas mais tarde. Restantes celebrações hão-de ser proclamadas e afixadas já nos finais de cada eucaristia dominical a que o ano ainda vai assistir.

O coveiro deixará animais por tratar, erva por ceifar, campo por lavrar e virá delinear quase milimetricamente sete palmos de terra. A par com os bens e os conhecimentos, herdou do pai esta ocupação em part-time. Ainda que comece a ser cada vez mais raro largar os afazeres da lavoura, para esta certeza da vida que é morte, a enxada estará sempre a postos. Ficará guardada no dia que o pai partir, certamente.

Na igreja, os lugares ficam todos ocupados, as hóstias não chegam para os pecadores confessos e confessados; vale ao padre a reserva do sacrário. Normalmente, só se socorre dele em alguns domingos do ano, em que a assembleia parece constituída por mais crentes que o costume. Ou isso, ou a administração de sacramentos que lá chama mais uns quantos.
Vem a aldeia em peso, muitos velhos, escassos novos. Vem o deficiente mental que teima em acompanhar os que já partiram. Sai o cortejo, homens  vestidos com capas e ao topo um porta estandarte.
A vida terminou ali para um e continua para todos os outros. Do defunto já se sabe. Para o cangalheiro o dia está feito. De voltar à betoneira e ao cimento na segunda, pois o sol já se pôs. O coveiro ainda vai reunir as ovelhas, assobiará a uma mais tresmalhada e irão ecoar, entre as montanha, meia dúzia de palavrões dados a uma vaca mais arisca.
As velhas rezarão as avé marias e os pais nossos para liquidar a dívida da Irmandade.
O padre irá preparar a celebração matutina, as outras quatro que se seguirão serão cópia, mais palavra, menos palavra pregada na homilia; menos hóstias distribuirá do que as que acabou de dar. Espera-o  serão em casa das manas solteiras, para tertúlia cultural. Os mais mal intencionados haviam de desenhar um sorriso amarelo, insinuando coisas pouco próprias. Aos padres nunca será compreendido o celibato.
Para casa irá um homem, velho, já perto dos noventa. Pensará que a morte lhe levou mais um companheiro de jornada, mais novo.  Significa que a morte vai estando cada vez mais perto. Quer afugentá-la. Quer viver mais trinta anos. Pelo menos. Ainda está novo, lúcido, ainda conduz e agora reza mais vezes o terço; nunca fiando, há que precaver. Se o cancro vem dos frangos de aviário ou dos peixes de aquacultura, pensou antes, é melhor manter a morte longe e não comer nada dessas coisas. Escrutina cada prato que lhe colocam à frente.
 Dizem que o amigo foi levado pelo enfarte do miocárdio; corre à prateleira para alcançar o livro das Selecções do Reader´s Digest, ler e cumprir à risca.  As 10 regras de ouro para manter um coração saudável vão ser leitura assídua alternando com versículos escolhidos da bíblia.. Tem a certeza que, desta forma, a morte ainda vai ficando longe. Recusa este destino tão certo que é a morte.



domingo, 12 de junho de 2016

o silencio instalou-se

Depois desta tarde, de lagrimita nos olhos, renovarmos os nossos votos matrimoniais por causa dos pedacinhos dos casamentos de Santo António que fomos "obrigados" a ver, vamos de regresso a casa.

Vamos em viagem e berrámos um com outro, depois de deixarmos o meu sogro em casa da minha cunhada. Estamos de candeias as avessas, depois de uma demonstração de mais um acto de egoísmo do meu sogro. Quer gerir a vida dos filhos, que nem sequer vivem perto uns dos outro, está a tornar-se um hábito para ele. Parecem peões nas mãos dele. Ele finge lágrimas cada vez que o contrariam e ele decide tudo - quando depende de nós - e temos de fazer o que ele quer. As coisas não são assim; se todos colaborarem - incluindo-o - e tudo se faz. Todos estamos a fazer os possíveis para que ele, todos os fins de semana durma na cama dele, esteja na casa dele, mesmo quando temos de fazer mais de trezentos quilómetros de viagem.
Sugiro-lhes que, calmamente, falem com ele; dialoguem. A minha cunhada diz logo que não pode ser, porque ele pode morrer por ser contrariado; o meu marido diz que não vale a pena falar com ele, mas também não tenta. Enquanto isso, o meu sogro já está a pensar ir passar o Agosto a casa, quando o filho emigrado regressar, ignorando que o próprio tem uma família e quer estar com ela.
Acho que vou ser eu que vou ter os pontos nos is como das outras vezes. Conversar com ele, continua a parecer-me a melhor estratégia. Nenhum deles tem aquele órgão ao fundo da barriga para o fazer.
Sou a favor que devemos prestar toda a assistência possível às pessoas mais velhas mas não à custa da nossa saúde.
Pelo andar da carruagem, ele com  oitenta e sete, ainda nos enterra a todos...

quarta-feira, 8 de junho de 2016

das minhas fragilidades. tenho coisas para contar, mas hoje "roubo" palavras a outros

O momento de escrever o que Maio me trouxe e me levou, vai chegar. falarei sobre isso, quando me sentir com os pés mais perto da terra e menos de cabeça para baixo. Sem os dramatismos com que agora vejo os acontecimentos.Maio trouxe e levou. A minha vida continua um novelo com muitas pontas e poucos fins à vista. tenho de falar nisso. Porquê? porque preciso. só não sei por que ponta começar.

Enquanto as minhas palavras não saem, gostei das de outrem, que não hesitei em roubar, sem pedir licença, mas dando os devidos créditos.

Tantas palavras te disse hoje,
mas as mais frágeis reservo-as
para o dia em que te encontrar. 
                                                       [Deste blogue] 


segunda-feira, 6 de junho de 2016

domingo, 29 de maio de 2016

não é fácil ser-se filho. nem feliz quando se é velho

Percebi há algum tempo que talvez ele não ame o pai da mesma forma que amou a mãe. Ainda dizem que os pais e as mães não terão preferências pelas suas crias. Se acontece os filhos preterirem um dos progenitores, porque não o contrário?
Também já entendi que a irmã prefere o pai à mãe. Estou mais crente que seja uma das hipóteses seguintes: remorsos de ter sido uma ausente cuidadora da mãe ou o cheiro,ainda que nauseabundo, de dinheiro lhe continua a saber muito bem, que continua a desejar que caia na conta, sem que para isso veja deveres. 

Do lado dele sinto-lhe a falta de uma paciência (sintoma que nunca lhe julguei ver) para ouvir as repetições, vezes sem conta, de histórias passadas, de pedidos inusitados, de clamores a Deus do pai, que nos seus oitenta e quase sete, ainda se julga novo para ser visitado pela Morte. Consigo ler-lhe a pouca vontade de voltar à serra [um dia disse-me que queria ser sepultado junto da mãe, agora estranho-lhe este comportamento], numa obrigação de fazer o pai feliz por voltar às origens ainda que sejam dois dias, duas  a três vezes por mês. Quase quatrocentos quilómetros, somando a ida com a volta. Mais o número de vezes que o pai nos liga para saber a que horas chegamos e as reclamações que ouvimos se, porventura, temos de sair mais tarde de casa.

Do lado dela, ouço-lhe as mil e uma queixas de uma mulher que ainda não tem cinquenta, com alma de uma velha acima dos anos de Vida do pai, do dinheiro que lhe falta, da saúde que apenas não tem para aturar umas coisas e para outras parece tê-la. Desfia um rol de maleitas que lhe atingem a tiróide e o pulso. Fala-nos da menopausa como se fosse doença rara que lhe calhasse somente a ela. Aturo-lhe hipocondrías que deve acumular de carregar processos num hospital. Acabo por censurar-lhe directamente, com argumentos muito meus, essa vontade que tem de por o filho na rua, só porque ele quer emigrar. tento fazê-la pensar que o filho é quem lhe resta. [Não acredito que tenha reflectido sobre isso]. Ainda assim, vejo-a de quinze em quinze dias, com os cabelos, unhas arranjadas e maquilhada, capaz de me assinalar se estou mais gorda, ou que é por mero acaso, que visto algo que lhe agrada. Eu, ao pé dela, serei uma maltrapilha. Ela é uma pessoa tóxica em muitos aspectos.

No entanto, a ele consigo ler-lhe o orgulho de filho quando o pai lhe conta o quanto toda a gente gosta dele no centro de dia, da reportagem no jornal, da visita do miúdo que o pai levou pela primeira vez à escola e que ele quase adoptou como neto, das idas do pai à discoteca, promovidas pelo Centro, ou da peça de teatro ou nas marchas em que vai participar e convida o filho para ir. Ela nunca se interessou por nada disso. 

No meio disto tudo, eu assinalo-lhe a ele que precisa de ter paciência; a ela, relembro-lhe a idade do pai. Nenhum dos dois parece querer ouvir-me.
Eu continuo a acompanhar isto, também não sei por quanto tempo. Também perdi forças para estar em todo o lado, acudir a tudo. Sempre achei que as pessoas de idade merecem atenção e dedicação, mas não a qualquer preço

Em breve, serão os meus pais que poderão precisar, afinal não caminham para novos. Quero pensar que eu e o meu irmão sejamos sensatos sobre a velhice dos meus pais. Coisa que eu, às vezes, penso que não haja entre o meu marido e a sua irmã. 
Quando dois burros puxam para lados opostos, dificilmente sairão do lugar.