Há relativamente pouco tempo a minha mãe perdeu a única
cunhada que tinha. Já lá vão quase dois
anos mas, para cada um de nós, parece que foi ontem.
Gostávamos daquela mulher bem resolvida e resoluta, que
gostava de fazer grandes festas e receber bem lá por casa. Não tinha meias
palavras na hora de dizer o que pensava. Isso custou-lhe alguns
dissabores. Tinha um feitio levado da breca mas era boa pessoa [digo isto por
saber que o era e não porque já só vive na minha memória].
Partiu repentinamente depois de uma curta estadia no
hospital. Confidenciou ao meu marido, numa das muitas visitas que lhe fez no
hospital, que estava preparada para morrer, que tinha pedido desculpa a quem achava
que devia pedir. Que ia em paz.
Não deixou de demonstrar no seu leito de morte a preocupação
pelo marido que haveria de ficar desamparado. Tinha os filhos, mas eles estavam
longe, e sem carta de condução, como haveria ele de fazer? Esquecera-se ela que
ele nunca precisou de carro, nem carta para calcorrear as ruas de Paris, sem
nunca se ter desorientado. Ou para apanhar um autocarro numa Lisboa que conhecia
muito mal e chegava a casa, sem dar trabalho a ninguém…
O único irmão da minha mãe, o mais velho de cinco, ficou
viúvo e, devido à sua compleição “enganosamente”
frágil, achávamos que iria mergulhar numa tristeza profunda. Isso, e ser um
completo atadinho, pois lá em casa quem usava calças era ela. Sem dúvida
absolutamente nenhuma.
Ele nasceu prematuro, foi o primeiro filho dos meus avós
maternos; exigiu alguns cuidados que há 80 anos não seriam assim tão comuns.
Sendo o filho varão, o meu avô talvez o tenha protegido além da conta . Há quem
diga que a minha avó o tenha prometido a Deus, mas lá deve ter achado depois,
que aquele ser franzino e com problemas de saúde, não resistiria às regras austeras de um seminário.
O meu tio cresceu, não sei se, por protecção exacerbada da
minha avó, se por acanhamento próprio da sua personalidade, não conseguia
arranjar mulher. Comentava-se, em surdina nas tascas da terra, que seria por
ter nascido pequeno e antes do tempo, que nem todos os seus órgãos estariam em
condições de funcionar devidamente. Se não era assim, não direi tal e qual, mas mais calão
menos calão, com copos de vinho à mistura, os comentários existiam.
O meu avô chegou a levá-lo ao médico para acabar com as desconfianças
dos outros (e as suas próprias, direi eu) que ele poderia não conseguir ter
capacidade de satisfazer uma mulher.
Não sei se o meu avô se preocuparia
exactamente com o prazer de uma mulher mas deixemos as coisas assim.Acreditemos nisso.
Temia não ver perpetuada
a sua geração. Isto conta agora (despudoradamente)
a minha madrinha, a segunda na sucessão dos filhos do meu avô, o segundo filho macho que o meu avô teve mas a quem a natureza lhe deu o sexo errado. (tenho histórias
dela que dariam outras quantas histórias).
Voltando o meu tio… Já espigado,
conheceu mulher fora da terra; logo casou com ela e só quando nasceu o seu
primeiro filho, o meu avô finalmente conseguiu pôr termo ao que por lá diziam
as más línguas acerca do meu tio.
Viveram quase 50 anos casados, tiveram dois filhos e várias
netos; nunca sequer suspeitámos que o meu tio seria alguém “saído da casca”, aquele
homenzinho tímido que dependia daquela mulher de armas. Enganámo-nos. Redondamente.
Depois de viúvo, sabemos que passou a parecer um bom partido
a umas quantas viúvas da terra. Gostou de atenção. Passou a ser o centro da atenção delas e do resto da
terra. Mais uma vez e passados tantos anos, por motivos completamente opostos.
Ou pelo mesmos motivos com causas opostas.
Ele fala à boca cheia que algumas viúvas da terra não o largavam. Que não lhe
faltariam candidatas a aquecer os pés no Inverno.
Antes de convidar o irmão para o almoço, uns dias antes, a minha
mãe soltou a bomba lá em casa. Para nos prepararmos. A minha intuição acertou
em cheio quando ela perguntou (pedindo segredo): adivinhem quem é a namorada do
meu irmão?
Depois de nos deixar de queixo caído com a notícia, ela
marcou o almoço. Fiquei a ouvir a irmã mais nova dar conselhos ao irmão mais velho.
O meu pai a dizer-lhe que não se metesse, eu a rir-me da situação. Aconselhou-o
a não contar sobre o que se passava entre quatro paredes mas acho que ele
fez pouco caso.
Pareceu esquisito a todos, a combinação entre o meu tio e
a mulher com quem vive agora. Porque do namoro passou a uma vida em conjunto. Ele paga as
contas (todos achámos isto muito conveniente dada a situação financeira que
dizem que ela tem) e ela apaparica-o até mais não.
Ele parece um pardalito saído no ninho, a descobrir todo um mundo novo. Aos (quase)
80 anos. Parece ter aprendido a conhecer a vida agora. parece que é sempre tempo para redescobrir que o amor pode morar ao lado.
Confidenciou ao meu irmão, que lhe fez o convite para o
aniversário do meu sobrinho, que estava feliz. que tinha sido feliz com a minha
tia. Chorou. Ela tinha partido e ele não era feliz sozinho. Estava muito feliz
agora. Esta mulher estima-o, e com sorriso maroto vai dizendo que as coisas na
cama não correm nada mal, e quando esmorecerem há-de haver outra solução
para a coisa. Diz isto com uma ponta de atrevimento e sem um pudor que conheceu
quando era novo e quando todos o punham em causa. A minha mãe censura-lhe um pouco
este comportamento. Para o proteger.
O meu irmão ri-se. que lhe vai dizer? Vê como os olhos
brilham. O meu tio abraça-o e fica-lhe agradecido por o convite também se ter estendido
à sua nova companheira. Uma mulher que toda a família conhece desde sempre,
vizinha dos meus avós maternos. Mas que todos temos dificuldade em ver a ocupar
um lugar que esteve preenchido durante cinco décadas. É difícil esquecer.
Como diria a minha madrinha, esteja onde estiver o meu avô,
há-de estar a rir-se dos que se riram do filho. Lá com os seus botões (haverá botões no céu, ou andarão todos nus?), há-de
estar a dizer: vá, digam lá que ele não consegue arranjar uma mulher!!
O meu avô também não era flor que se cheirasse; vamos
sabendo de histórias aqui e ali. Mas essa história ficará para outro capítulo… [
se quiserem saber].