quinta-feira, 26 de julho de 2018

Dia dos Avós - os meus avôs



Os meus avôs eram exactamente opostos entre si e entre as respectivas companheiras.
Se a minha avó materna era austera, já o meu avô era permissivo  (pelo menos essa ideia que tenho dele - morreu eu tinha nove).
Se ela era uma pessoa sempre asseada [não falei nisto (aqui) mas era-o - exacerbadamente asseada, mesmo andando descalça ], o meu avô andava de qualquer maneira e ela zangava-se com ele. Ela tinha muito brio; já para ele, qualquer coisa servia.
 Ele era pragmático. Prova disso foi, quando teve que ir fazer o registo das filhas à conservatória, e decidiu o nome lá, conforme dissera à minha avó que o faria. Quase todas as filhas têm uma história em redor do nome. Burburinhos sobre este tema eram sempre causados por ele. A minha mãe tem o mesmo nome da minha avó; esta quando soube do que o meu avô se tinha lembrado, descompô-lo.Explicou-lhe ela que ele nunca devia ter decidido que ambas tivessem o mesmo nome. Que os outros iriam distingui-las pela idade, chamando a uma “velha” e a outra “nova”.  Para alívio da minha avó, creio eu, a minha mãe sempre foi chamada por um diminutivo.
O meu avô materno aprendeu a ler já em adulto; o meu avô paterno nunca soube ler e só sabia assinar o seu nome, mas conhecia as letras do alfabeto.
O meu avô materno era calado; o meu avô paterno era um adorável contador de histórias.
O pai da minha mãe nunca bateu nos filhos; o pai do meu pai dificilmente perdoava falhas; não dava lugar a explicações quando lhe faziam queixas dos filhos. Deu uma educação austera aos filhos, talvez porque os teve que criar sozinho, durante uma fase que a minha avó esteve no sanatório, tendo morrido posteriormente. O meu avô, analfabeto, institui em casa, aos filhos,  uma série de regras apertadas de higiene para que eles não fossem apanhados no surto de tuberculose que assolava a terra e o país.
O meu avô Luís (o materno) tem a  fama de dar muita assistência às viúvas da terra, ajudando a tratar-lhes da papelada de bancos e coisas assim… ao meu avô Manel (o paterno) nunca ouvi ser acusado de comportamento adúltero  embora houvesse quem tentasse levantar suspeita.
O meu avô Manel foi o primeiro a dar-me uma bebida alcoólica (vinho branco) quando eu era miúda, só para perceber se eu gostava. Ele comprou uma égua e uma charrete para os netos aprenderem a montar e passear de charrete. Foi um avô muito mais carinhoso que algum vez foi como pai.
fazia questão de reunir em seu redor os filhos, os netos e as noras. Premiava todos na Páscoa e no Natal.
O meu irmão é, hoje, ao fim de mais de quinze anos após a sua morte, quem mais chora a sua morte. Mas também eu, nunca esquecerei o meu avô Manel.

Há dúvidas de quem eu gostava mais? acho que não...

Dia dos Avós - as minhas avós


Quando é que me lembro mais da minha avó materna? quando tenho que cerzir alguma peça de roupa à mão.
Ainda esta semana aconteceu, e lembrei-me de quão perfeitos eram os seus pontos, que eu consigo copiar apenas quando uso a máquina.
Dela, poucas memórias mais tenho. A minha mãe nasceu já ela tinha 44 anos, e ainda que a minha mãe tivesse casado e tivesse tido filhos cedo, eu já a conheci velhota. Nunca fomos muito próximas.
Lembro-me que a visitava poucas vezes. apesar de não vivermos muito longe, desde cedo quando queria falar da minha avó materna, dizia a “avó lá de longe”.
Não era uma avó meiga. Era austera. Obriga-me a pedir-lhe a sua bênção quando a visitava: A sua bênção, minha avó. Ao que me respondia: Deus te abençoe.
A minha avó materna era avarenta, sovina. Se comprasse um quilograma de maçãs só as dava a comer quando já começam a deixar de estar sãs.
Os último anos de vida passou-os em casa dos filhos e faleceu no Inverno dos meus 16 anos.
Nunca conheci a minha avó paterna; faleceu era o meu pai uma criança bem pequena. Conheci-lhe a fisionomia pelas poucas fotos que existem; conheço-lhe uma maneira de ser demasiado romantizada, pois às pessoas falecidas suavizam-lhe os defeitos, engrandecem as qualidades.
A minha avó paterna foi a madrasta do meu pai, e sempre nos tratou como netos; a mim e aos restantes quatro do meu avô. Lembro-me de a ouvir comentar com o meu avô que o meu irmão era o neto mais lindo que ele tinha. 
Lembro-me das bolachas baunilha que me dava. Já não se fazem assim, com aquele sabor. Dos tremoços e das pevides, dos palmiers e da laranjada como lhe chamava, na Páscoa e no Natal, que comíamos à volta da mesa da sala. Das pequenas poupanças que tinha da reforma, distribuía pelos netos do meu avô, a quem sempre considerou também como seus.
Os últimos dias dela vieram mais cedo talvez pelo desgosto da morte do marido e a de uma “nora emprestada”, a quem a vida foi ceifada demasiado cedo. Acreditamos que aconteceu por isso, embora já passasse dos 80.
A minha avó materna emprestada sempre foi mais avó que a minha avó materna.
Tal como os pais, também não escolhemos avós. Mas temos preferências.

quarta-feira, 25 de julho de 2018

Sobre o amor na terceira idade [e outra história de família]


Quem nunca ouviu dizer que o amor não escolhe idade? E acreditamos verdadeiramente nisso?
Ou quando nos acontece, ou aos que nos são próximos, mudamos de opinião porque passamos a contar também com os preconceitos para a equação?
Quando escrevi este longo post, tinha lá implícito que, apesar de obviamente querer que o meu tio seja feliz, um pequeno preconceito associado envenena isso.
O conflito de emoções nem sempre nos faz aceitar as coisas tão bem quanto desejaríamos.
As pessoas na terceira idade não podem ser condenadas à solidão. é certo. Quando olhamos para o meu tio, achamos que ele já devia ter idade para ter juízo.
Mas, no fundo, custa-nos pensar que a pessoa que foi sua companheira durante anos, de repente,  veja o seu lugar tomado. Como se ficasse esquecida.
Passo a explicar com outra história.
O meu sogro vai a caminho dos noventa; para o ano, esperamos que os faça e com saúde. Ditou a vida que ficasse viúvo há quase dez anos e há dois  deixasse a casa dele e, durante o dia, frequentasse um Centro para idosos. Onde os idosos são tudo menos isso. Felizmente.
O centro promove muitas actividades e mantém pessoas como ele muito activas. Temos gostado muito que assim seja. Vemo-lo feliz. Vamos às festas como fazem os pais no final do ano lectivo dos filhos, só que ao contrário: os filhos vão ver os pais.
Sabemos que a sua atenção foi muito disputada entre duas senhoras lá do centro. Mas a má língua de uma, fez a outra ganhar a disputa. Cresceu a amizade. (Nós víamos isso assim, sem maldade; sabemos agora que há marotice da parte dela)
As funcionárias lá do centro resolveram fazer-lhes o casamento. vestiram os noivos. houve padre (a brincar) e tudo.
Mais tarde, ele avisou o meu marido que podíamos ver o vídeo. acho que foi para ver a nossa reacção.
Ainda não tínhamos tido oportunidade de ver e, anteontem, assistimos. e ficámos os dois calados. aquilo custou-nos aos dois.  
Eles não são dois meninos que estão a brincar de casamento para os restantes assistirem. Caiu-nos muito mal.
Acho que ele acedeu a fazer aquilo por ser muito brincalhão, mas nós já não conseguimos ver a situação dessa forma.
Vamos recebê-lo este fim-de-semana lá em casa. Já falámos no assunto entre nós e não vamos comentar nada.
Mas, de repente, sentimos que ele consentiu aquilo, mesmo vendo no casamento uma instituição sobre a qual não se deve fazer piada. Como ele defende isso!
Ficámos os dois em silêncio e sentimos que foi como se a sua verdadeira mulher deixasse de ser o grande amor da vida dele.
E o nosso conceito de amor ficou mesmo abalado. como se o amor não fosse para a vida toda...



terça-feira, 24 de julho de 2018

Quando a família dá umas quantas histórias (1)


Há relativamente pouco tempo a minha mãe perdeu a única cunhada que tinha.  Já lá vão quase dois anos mas, para cada um de nós, parece que foi ontem.
Gostávamos daquela mulher bem resolvida e resoluta, que gostava de fazer grandes festas e receber bem lá por casa. Não tinha meias palavras na hora de dizer o que pensava. Isso custou-lhe alguns dissabores. Tinha um feitio levado da breca mas era boa pessoa [digo isto por saber que o era e não porque já só vive na minha memória].
Partiu repentinamente depois de uma curta estadia no hospital. Confidenciou ao meu marido, numa das muitas visitas que lhe fez no hospital, que estava preparada para morrer, que tinha pedido desculpa a quem achava que devia pedir. Que ia em paz.
Não deixou de demonstrar no seu leito de morte a preocupação pelo marido que haveria de ficar desamparado. Tinha os filhos, mas eles estavam longe, e sem carta de condução, como haveria ele de fazer? Esquecera-se ela que ele nunca precisou de carro, nem carta para calcorrear as ruas de Paris, sem nunca se ter desorientado. Ou para apanhar um autocarro numa Lisboa que conhecia muito mal e chegava a casa, sem dar trabalho a ninguém…
O único irmão da minha mãe, o mais velho de cinco, ficou viúvo e,  devido à sua compleição “enganosamente” frágil, achávamos que iria mergulhar numa tristeza profunda. Isso, e ser um completo atadinho, pois lá em casa quem usava calças era ela. Sem dúvida absolutamente nenhuma.


Ele nasceu prematuro, foi o primeiro filho dos meus avós maternos; exigiu alguns cuidados que há 80 anos não seriam assim tão comuns. Sendo o filho varão, o meu avô talvez o tenha protegido além da conta . Há quem diga que a minha avó o tenha prometido a Deus, mas lá deve ter achado depois, que aquele ser franzino e com problemas de saúde, não resistiria às regras austeras de um seminário.

O meu tio cresceu, não sei se, por protecção exacerbada da minha avó, se por acanhamento próprio da sua personalidade, não conseguia arranjar mulher. Comentava-se, em surdina nas tascas da terra, que seria por ter nascido pequeno e antes do tempo, que nem todos os seus órgãos estariam em condições de funcionar devidamente. Se não era assim, não direi tal e qual, mas mais calão menos calão, com copos de vinho à mistura, os comentários existiam.

O meu avô chegou a levá-lo ao médico para acabar com as desconfianças dos outros (e as suas próprias, direi eu) que ele poderia não conseguir ter capacidade de satisfazer uma mulher. 
Não sei se o meu avô se preocuparia exactamente com o prazer de uma mulher mas deixemos as coisas assim.Acreditemos nisso.
Temia não ver  perpetuada a  sua geração. Isto conta agora (despudoradamente) a minha madrinha, a segunda na sucessão dos filhos do meu avô, o segundo filho macho que o meu avô teve mas a quem a natureza lhe deu o sexo errado. (tenho histórias dela que dariam outras quantas histórias).

Voltando o meu tio… Já espigado, conheceu mulher fora da terra; logo casou com ela e só quando nasceu o seu primeiro filho, o meu avô finalmente conseguiu pôr termo ao que por lá diziam as más línguas acerca do meu tio.

Viveram quase 50 anos casados, tiveram dois filhos e várias netos; nunca sequer suspeitámos que o meu tio seria alguém “saído da casca”, aquele homenzinho tímido que dependia daquela mulher de armas. Enganámo-nos. Redondamente.


Depois de viúvo, sabemos que passou a parecer um bom partido a umas quantas viúvas da terra. Gostou de atenção. Passou a  ser o centro da atenção delas e do resto da terra. Mais uma vez e passados tantos anos, por motivos completamente opostos. Ou pelo mesmos motivos com causas opostas.

Ele fala à boca cheia que algumas viúvas da terra não o largavam. Que não lhe faltariam candidatas a aquecer os pés no Inverno.

Antes de convidar o irmão para o almoço, uns dias antes, a minha mãe soltou a bomba lá em casa. Para nos prepararmos. A minha intuição acertou em cheio quando ela perguntou (pedindo segredo): adivinhem quem é a namorada do meu irmão?

Depois de nos deixar de queixo caído com a notícia, ela marcou o almoço. Fiquei a ouvir a irmã mais nova dar conselhos ao irmão mais velho. O meu pai a dizer-lhe que não se metesse, eu a rir-me da situação. Aconselhou-o a não contar sobre o que se passava entre quatro paredes mas acho que ele fez pouco caso.

Pareceu esquisito a todos, a combinação entre o meu tio e a mulher com quem vive agora. Porque do namoro passou a uma vida em conjunto. Ele paga as contas (todos achámos isto muito conveniente dada a situação financeira que dizem que ela tem) e ela apaparica-o até mais não.

Ele parece um pardalito saído no ninho,  a descobrir todo um mundo novo. Aos (quase) 80 anos. Parece ter aprendido a conhecer a vida agora. parece que é sempre tempo para redescobrir que o amor pode morar ao lado.

Confidenciou ao meu irmão, que lhe fez o convite para o aniversário do meu sobrinho, que estava feliz. que tinha sido feliz com a minha tia. Chorou. Ela tinha partido e ele não era feliz sozinho. Estava muito feliz agora. Esta mulher estima-o, e com sorriso maroto vai dizendo que as coisas na cama não correm nada mal, e quando esmorecerem há-de haver outra solução para a coisa. Diz isto com uma ponta de atrevimento e sem um pudor que conheceu quando era novo e quando todos o punham em causa. A minha mãe censura-lhe um pouco este comportamento. Para o proteger. 

O meu irmão ri-se. que lhe vai dizer? Vê como os olhos brilham. O meu tio abraça-o e fica-lhe agradecido por o convite também se ter estendido à sua nova companheira. Uma mulher que toda a família conhece desde sempre, vizinha dos meus avós maternos. Mas que todos temos dificuldade em ver a ocupar um lugar que esteve preenchido durante cinco décadas. É difícil esquecer.

Como diria a minha madrinha, esteja onde estiver o meu avô, há-de estar a rir-se dos que se riram do filho. Lá com os seus botões (haverá botões no céu, ou andarão todos nus?),  há-de estar a dizer: vá, digam lá que ele não consegue arranjar uma mulher!!

O meu avô também não era flor que se cheirasse; vamos sabendo de histórias aqui e ali. Mas essa história ficará para outro capítulo… [ se quiserem saber].

segunda-feira, 16 de julho de 2018

quinta-feira, 12 de julho de 2018

Talvez esteja a descrever o paraíso...


[imagem Google]

Apetecia-me estar numa cabana mesmo à  beirinha da praia, semi-isolada, que não fosse preciso andar muito para dar um mergulho, comidas leves e boas que não tivesse que ser eu a cozinhar, uma cama fofa ou uma rede confortável para dormir sestas sem me importar se ressono* ou não... (e se os outros ouvem ou não).


(*a ver se a cirurgia pensada para este ano me resolve este problema menor, dentro de um maior que tenho)

quarta-feira, 11 de julho de 2018

férias, quais férias?


Mesmo não havendo incêndios (felizmente), o tempo dele reparte-se mais pelo quartel, que por casa; o meu tempo pouco mais serve para trabalhar e andar de volta das papeladas de um clube do que para dormir ou outras tarefas básicas de casa.

Quando a minha vida e a dele coincidem algures numa das partes da casa, serve para nos lamuriarmos com um “estou morto/a de cansaço”. esparramamo-nos cada um num sofá (devíamos ter pensado em algo maior para dividir por dois) enquanto fingimos ver, pela quinquagésima sétima vez aquela série na FOXCRIME. Sucumbimos ao sono sem nunca chegarmos a saber quem foi o autor do crime. arrastamo-nos bem depois da 1 da manhã para a cama, para um par de horas de sono. há que levantar cedo todos os dias. o fim-de-semana também conta.

Andamos os dois a gritar por tudo quanto é poro que precisamos de férias; e isso nada tem a  ver com o Verão ou de já termos recebido o subsídio ou ainda de toda a gente já ter as férias programadas e falar nelas  pelo menos quinhentas vezes ao dia.

Estamos mesmo em modo de sobrevivência. As noites não têm horas suficientes para que o sono seja retemperador e os fins-de-semana são quase uma cópia da semana.

Há a cirurgia e as obras em casa que queremos fazer antes que o Verão acabe.

Eu só penso em estar de papo para o ar, com sol e sal na pele, sem preocupações N-E-N-H-U-M-A-S.  

Acabei de lhe perguntar a ele se ainda teremos férias juntos. Disse-me: talvez em Novembro.

o melhor é esquecer o sol e o sal e resignar-me que este ano não há férias… para onde haveria de ir em Novembro?