domingo, 27 de janeiro de 2019

Tenho uma stalker

Há  cerca de quatro anos que tenho uma colega "ajudante"de trabalho.
Nem eu nem ela temos os melhores feitios do mundo. Sei que sou muito exigente e cheia de preciosismos. Ensinei-lhe tudo o que sei, anos de experiência acumulada. Mas uma coisa é ensinar, outra é querer aprender. Em termos técnicos ela é medíocre, porque vem da área das línguas e engenharia é coisa que pouco ou nada lhe interessa. À partida, o que não  acontece sempre,  se lhe derem uma receita ela consegue-a cumprir, mas é incapaz de distinguir dois materiais, ou fazer sua substituição por algo similar. Não tem estes atributos, dá-lhe muito trabalho adquiri-los, e simplesmente não está para se chatear. Ao fim deste tempo todo, acha que já  acumulou tempo de casa para se acomodar, com o seu nariz empinado, dificilmente aceita sugestões ou críticas  construtivas. Porém, tem uma mania que me deixa arrepiada.

O certo é que, não aceitando ouvir a voz da experiência, também me ignorasse noutros aspectos. Só que não.

Começamos  logo pelas expressões que uso ao telefone para cumprimentar as pessoas. Se, naquele dia, eu disser a alguém, num tom quase cantarolado: olá,  viva, como vai isso? É certo e sabido que vou ouvir a pergunta e o tom que usei, repetido por ela, indefinidas vezes. E, oh!, se ela tem muito jeito para as imitações! Mesmo.
Se eu usar uma palavra menos comum um dia, ela vai repeti-la vezes sem conta. Se atender alguém que é habitual tratar comigo, ela desmancha-se num simpatia (muitas vezes falsa) porque acha que, deste modo vai passar a ser mais requisitada, só porque conseguiu ser ainda mais simpática que eu. O inverso é igual. Há pessoas a quem eu deixo bem claro os meus limites e se me zango também o demonstro.  Se calha eu faltar e ela tratar com a mesma pessoa, vai fazer a mesma coisa mesmo não se justificando.

Durante meses houve um lugar de estacionamento na empresa que, dada a sua acessibilidade, nunca  era ocupado. Como eu era das últimas  a sair, não me causava constrangimento estacionar lá. Como habitualmente chego primeiro que ela, é lá que costumo estacionar. Até  ao dia que ela chegou primeiro e deixou de estacionar no seu lugar habitual para estacionar no meu. Nunca deixa o carro a jeito  de sair mas eu, quando estacionava la, punha-o de marcha atrás, prontinho para qualquer eventualidade. Desde que consegue estacionar lá , também faz a mesma manobra. Mas só se conseguir estacionar lá.

E podia enunciar n coisas que faço que são indefinidamente copiadas por  ela. Tenho pena que ela não seja tão dedicada a imitar-me quanto ao profissionalismo, já que passa horas a fio entre as conversas no telefone pessoal e o facebook.

Se, por qualquer razão,  eu ligar ao meu marido fazendo-lhe algumas perguntas  habituais, vou ouvi-la repetir as mesmas ao marido dela. Logo de seguida.

Eu não lhe disse que ia ser operada. Propositadamente. Porque já sei que ela me vai estar sempre a ligar por insignificância e depois quer saber coisas. Sei que ficou arreliada por  não  lhe ter contado. Só o  soube porque o meu patrão se descaiu e perguntou lhe se eu já tinha dado noticias...

Fiquei a saber que cada vez que alguém perguntava por  mim, ela se punha a contar pormenores que ela não  sabia mas inventava. Gerou com isso uma carga de ciúmes  noutra colega que achava que eu dava mais satisfações a uma que a outra...

Quando voltei achei o ambiente estranho. A outra colega estava fria comigo, a macaca de imitação estava numa grande excitação. Não  percebi nada daquilo, estranhei, mas não dei grande importância. Sentia a outra minha colega quase muda. Ela mais que minha  colega é minha amiga; conhecemo-nos desde que entrei para a empresa.
Mas só  ontem percebi a gravidade da situação. Pus o dia de férias para tratar de uns assuntos, avisei-as com o devido tempo para depois a empresa não ficar descalça . Ela ligou-me a meio da manhã, para dizer uma insignificância qualquer e tentar perceber onde é que eu estava e com quem estava.
Sei que, depois do final da ligação, se virou para a minha outra colega  e quase lhe disse em tom jocoso: eu falei com ela e tu não. Eu sei onde é que ela está e tu não. Eu sei que... etc.

E voltaram os ciúmes  da outra porque achou que eu agora era amicíssima de uma pessoa com quem nada me identifico. Soube destes ciúmes e da estranheza do ambiente na empresa depois do meu regresso.

Ela quer sempre ser a primeira a saber de tudo, em primeira mão, mas tem um bocado de azar, porque eu não conto as coisas da minha vida nem questiono os outros sobre as suas.

Eu nem sabia que era uma pessoa assim importante ao ponto de ser tão disputada. E copiada. Essa é a parte que me incomoda mais.

Se eu contar uma anedota, vou ouvir  ela reproduzi-la a alguém nos minutos seguintes. Se eu fizer piada com um acontecimento da minha vida, é certo que partirá dela algo semelhante para contar. Eu acho que ela ainda não arranjou  nenhuma luxação no dedo igual  a minha, porque ainda não conseguiu esbardalhar-se como eu...


Nunca na vida imaginaria ter uma  stalker... e é coisa que me incomoda muito. 

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

O tempo passa depressa...

Hoje faz 23 anos que ele me pediu namoro...

Nem sempre isto tem sido um jardim de rosas. Já passamos por algumas situações que não  desejo a nenhum casal. A infertilidade não nos matou mas deixou-nos debilitados. A doença  e a morte da mãe dele também não nos trouxe bons momentos. Todos os verões e um suplício com o combate aos incendios e ele em campo. E outras coisas mais.

Continuamos juntos porque temos sido mais fortes do que qualquer mau acontecimento. E isso é que importa.

sábado, 19 de janeiro de 2019

Está aqui uma casa bem governada...

Segundo o médico, a recuperação do nariz está a ser excelente. Menos mal. Mas ha os exames que a médica de família mandou fazer que  me deixam nervosa. Hoje ando a monitorizar a pressao arterial durante 24h, e cada vez que o sinto o aparelho encher, o coração parece querer saltar de nervosismo .

Já o homem cá de está com uma constipaçãozita, mas apregoa que está com os pés virados pra cova. Lamenta-se, lamenta-se...

Esta tarde vou ter de sair por algum tempo de casa. Dou os dedos  todos das mãos, ou ate mesmo os rins, como diz a Joana, em  como ele vai dar um pulinho aos bombeiros, só para ver como pára a moda... aposto que nao ha constipação que o demova...

O que as mulheres têm que aturar. Tanta paciência que é preciso ter.


( e não me enganei.... o vício dos bombeiros é superior a qualquer constipação de homem)

o sofrimento da auto-avaliação

"Não são as coisas que acontecem connosco que nos fazem sofrer, mas o que nós dizemos a nós mesmos sobre essas coisas”. 
                                                                                                            (Epíteto)

Sempre tive dificuldade em socializar com as pessoas de uma forma geral, porque nem sempre sei, exactamente, quais são as regras comportamentais.

Nunca tive muitos amigos, sou muito selectiva nas pessoas com quem me dou e a quem faço confidências. Poucos mas confidências porque a maior parte das vezes não partilho nada sobre a minha vida. Isto não é arrogância, é a minha incapacidade de saber interagir. 
Da mesma forma, não costumo meter-me na vida pessoal de ninguém, não faço perguntas sobre a vida pessoal delas, ouço quando me procuram para confidências e só manifesto o meu conselho se a pessoa mo pedir. 

Assumo que não sou uma mulher bonita nem nunca serei, e considero que essa consciencialização me poderá ter criado, desde sempre, barreiras para a socialização.
Possivelmente também não serei uma pessoa interessante. Acho que o único que acha que o sou será o meu sobrinho de oito anos, que acha que eu sei tudo e me faz perguntas à espera de uma boa resposta.

Às vezes, não sei muito bem  avaliar se estou a agir da melhor forma e, mais tarde, começo a fazer uma avaliação do meu comportamento, e quase sempre dou por mim a passar a pente fino cada atitude e, normalmente, a recriminar-me por cada uma delas.

Nunca sou assim no trabalho. Sou muito "terra à terra", sei como fazer, o que fazer e a forma de agir com cada um dos quais interajo. Há regras definidas, bem delineadas, umas por mim, outras pela empresa, as que considero que não devem ser ultrapassadas de forma nenhuma, e as que posso rever consoante a pessoa. Tomo decisões rápidas e quase sempre estrategicamente bem sucedidas. Não me sinto insegura sobre o meu comportamento. Sinto que sou boa naquilo. Talvez por isso continue com medo de mudar de emprego. De deixar de ser bem sucedida em algo. Talvez por isso, quando digo que sou uma pessoa muito tímida, no trabalho ninguém acredita. O meu patrão, então, ri-se-por eu me auto-qualificar de tímida.

Na vida pessoal, em situações novas, dou por mim a avaliar minuciosamente cada situação. Admito que talvez o faça mais frequentemente nas alturas que ando um bocadinho mais fragilizada.

A mais recente atitude tem a ver com a um email que enviei ontem; depois de o ter enviado [e de já ter verificado que não tive qualquer resposta] já estou aqui a montar mentalmente uma sala de tortura pela atitude, que agora avalio como exagerada (que até pode não ser). Estou aqui a remoer sobre o que escrevi.  Na altura que o escrevi, não achei atrevido ou com demasiada familiaridade. Tenho estado aqui a pensar que pode ter sido interpretado assim.

Não me considero uma pessoa mal-educada, desrespeitosa ou até antipática. Assumo que, sou demasiado sincera, para o bem e para o mal. Neste caso fui sincera para o bem, teci elogios, agradeci e demonstrei a minha mais recente felicidade por uma tomada de decisão. Acabei por ser também mais descontraída na linguagem, fazendo algumas pequenas confidências. Possivelmente devia ter estado quieta. será que agi mal? 

Daqui a pouco já terei a resposta pessoalmente. Se calhar, estou a fazer uma tempestade num copo de água Ou talvez não.

Estou sempre com receio de não ser uma pessoa socialmente correcta. Fico muitas vezes envergonhada com as minha atitudes espontâneas. Por achar que não fui recatada o suficiente.


quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

Diário da gratidão | 17.01.2019

Estes dias têm sido atribulados por causa de andar sempre a caminhar para o hospital por causa do dedo. As reflexões que tenho feito não têm sido muitas por causa das contrariedades que tenho sofrido para tentar resolver isto. mas o optimismo continua a reinar.

Porém, hoje, agora, acabo de ler isto nos destaques do Sapo:


e é impossível não embaciar os olhos com lágrimas.

Estou tão grata por ter comigo as pessoas que me são mais queridas. Por lhes poder dizer boa noite, dorme bem. Ou, olá como estás e como estão os meninos? 

Posso vê-los, senti-los, abraçá-los, beijá-los, contemplá-los. Vê-los crescer. Ou ouvir a voz a relatar os acontecimentos do dia, ou o cabecear de sono por causa do cansaço.

Estou grata, tão grata pelas minhas pessoas. As que amo profundamente, as que a fazem parte da minha alegria, do meu orgulho, daquilo que sou, da minha essência.


quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

Diário da gratidão | 15.01.2019


O final do dia de ontem teve uma série de acontecimentos que, acredito, só acontece a pessoas mais propensas a coisas surreais. Por isso, este post fica registado no dia de ontem.

Enquanto esperava a nova vistoria ao nariz para ver a recuperação da cirurgia, estava uma miúda, com a sua mãe, que se queixava muito de dores de ouvidos. Tive muita pena dela. Ainda tentei encetar conversa para a distrair [ e ela até correspondeu] mas, de vez em quando, saía um: Ai mãe, dói muito.

Dei por mim a pensar que, apesar de sempre ter tido problemas do foro respiratório, nunca padeci de dores de ouvidos insuportáveis.

E enquanto continuava a aguardar fui pensando o quanto me sinto verdadeiramente feliz por ter tomado a decisão de fazer a intervenção cirúrgica. Foi mesmo a melhor decisão que tomei nos últimos anos.

Esta felicidade é mesmo sentida; senti a mesma felicidade de quando me envolvem num abraço quente, seguro, reconfortante. Como se flutuasse. não sei explicar…

Pareço uma miúda a quem deram uma peça de roupa nova. Ou um livro. Ou uma boneca que sempre sonhou ter. é uma felicidade que parece querer borbulhar de excitação.

Embora ainda tenha muito caminho a fazer por causa do nariz [aprender a respirar pelo nariz e fazê-lo inconscientemente, tomar conta dos aromas, saborear a comida de outra forma], sinto-me muito grata por esta felicidade.

Sou tão difícil com decisões, e o facto de esta ter sido tão bem sucedida deu-me ânimo para seguir em frente, não parar de querer mudar o que eu sempre quis mudar e nunca tive coragem.

Estar feliz é uma coisa tão efémera que vale muito estar grata por isso.


Relembro-me que a coragem de regressar ao otorrino, passados quase 20 anos, se deveu ao ouvidos, ao facto de ter deixado de ouvir adequadamente em Maio de 2018.

terça-feira, 15 de janeiro de 2019