E porque não adopta?
Foi esta a pergunta que o médico me fez, ontem, depois de mais uma de muitas vistorias ao nariz, enquanto falávamos na vida.
Respondi aquilo que já respondi à médica de família quando ela me aborda o assunto: tenho medo de não saber amar.
Amar aprende-se! ambos me responderam.
Eu sei que há a outra parte da frase que eu guardo para mim: tenho medo que a criança não me ame, tenho medo de não saber ser mãe. Afinal é-me confiada uma criança que não tem nenhum elo comigo.
Sei que o meu marido pensa muito nesse assunto; vejo nos seus olhos o brilho de esperança que eu possa estar finalmente preparada para essa hipótese, quando eu conto que me falaram nisso. Mas respeita e não insiste, quando digo que não sou capaz. Vejo que o brilho se apaga.
Amar uma criança é uma enorme responsabilidade. Amar uma criança a quem já falharam uma vez, é responsabilidade acrescida. Nenhuma criança (nem ninguém) merece ser mal amado.
Também escondo dentro de mim que, apesar de estar a perder a validade, um dia o milagre acontecesse. É a réstia de esperança a falar. E com isto posso contar pouco.
Como dizia o médico ontem, ter um filho é permitir que os nossos sentimentos sobre a morte não prevaleçam sobre as alegrias da vida. Há os que já partiram mas há quem precise muito de nós e nos apazigue as perdas.
(assumo que ando a caminhar sobre uma falsa serenidade sobre este assunto, porque a ferida volta a abrir e eu vou-me abaixo, como agora, que as lágrimas correm em bica.)