Nos últimos tempos, tem sido uma grande aprendizagem aquela a
que me tenho dedicado, isto de crescer por dentro.
Uns dias progride-se, outros dias o contrário. Como diz alguém
que eu conheço e de quem vou gostando cada mais da sua postura perante a vida,
às vezes é preciso dar um passo atrás, para dar dois à frente.
Há muito coisa que ainda tenho medo de ser ou de estar; não sei
se sempre fui medrosa ou foi o tempo e os outros que me fizeram assim; acho que
já nasci velha para o risco. e precavida, sempre a tentar controlar as
variáveis que me possam por em causa.
E depois olho para os que me rodeiam, e de vez em quando, também
me contam pormenores que não gostam em si que, aos meus olhos, não têm nenhuma
razão de ser. Acho que todos somos um pouco exigentes nas auto-avaliações.
Num mundo global, em que deixa o anonimato e passamos a dar-nos
a conhecer aqui ou a alguém que está no Japão, é hoje em dia coisa comum. O
mundo hoje vive da imagem, do seu poder de sedução. ou da falta dele.
Mas eu ainda tenho muitas dificuldades de passar das palavras à
imagens. Sei o quanto me acautelo por
medo de decepcionar os outros. Porque me conhecerão de dentro para fora, e
receio que o medo da imagem faça esquecer tudo aquilo que me conhecem por
dentro. Porque me prefiro, com os meus mil e um defeitos, pelo que sinto e
penso, e não a minha imagem. Porque a imagem vale mais que mil palavras e pode deitar tudo a perder.
Falo com muitas pessoas, mas a maioria delas só me conhece a
voz. Não raras as vezes, dizem-me que gostariam tanto de me conhecer. e garantidamente não é por ter a voz sexy,
embora nestes últimos tempos esteja rouca. às vezes, comentam com os
comerciais sobre mim, e voltam a expressar a vontade de estarem comigo cara a
cara. Não percebo a fascinação, porque da minha parte não existe essa
reciprocidade na vontade. Não sou muito curiosa quanto a isso, ou só estou a
espelhar que, não querendo eu que se quebre essa aura de fascinação [porque se
vai quebrar certamente], não me despertam a curiosidade.
Ontem contrariei esse medo da imagem. A mim, não me faz confusão falar com alguém ao
telefone, ou por mensagens ou email a quem nunca vi a cara. Mas finalmente percebo
que nem toda a gente pensa como eu. Há a quem isso faça confusão.
Há muitos anos que nos conhecemos, mas nunca estive
pessoalmente com ela. Um dia, hei-de dar-lhe um abraço. Prometi-lhe ontem. Ela
partilha comigo, desde cedo, algumas das cenas da sua vida, das suas fotos do
dia a dia, quando falamos de pedaços da nossa vida, que têm pontos em comum. Acho
que ela é linda, apesar de ela apontar continuamente algumas das
características que acha que lhe arruínam a imagem. eu não acho nada disso.
Acho que tem um encantamento que ela ainda não descobriu quando se olha no
espelho, mas eu vejo-o lá.
Ontem, e talvez porque esteja a acontecer progressão em mim mesma,
dei-lhe a conhecer quem eu sou fisicamente. Uma foto recentíssima, que não me
envergonha muito, não me deixa apreensiva. Não é pela maquilhagem, mas porque me senti
bonita. Porque uma coisa é estar bem – e aí creio que não me avalio mal – outra
coisa é estar bonita. Não que quisesse impressionar, mas não me queria
envergonhar. e queria retribuir-lhe o gesto de poder perceber com quem fala,
sem ser necessário imaginar. Talvez seja parvo mandar uma foto a alguém – chego
a pensar que é – contudo, às vezes, temos de vencer o medo de nos expormos e de
nos sujeitarmos às avaliações de outrem. Afinal, e salvo de fizermos uma
cirurgia estética, é assim, com tendência para pior possivelmente, que vamos
estar. Não vamos poder apresentar uma versão revista do que somos.
Para a maioria das pessoas, sei que isto que escrevi, é uma
tremenda tolice. Mas como disse atrás, as pessoas sofrem com problemas com pequenos
pormenores que não gostam em si. O meu pormenor tem 1.62 m e um palmo de cara
que não aprecio particularmente, este, o meu. mas estou a tentar mudar. e ontem resolvi que
me tinha que expor, dar um voto de confiança, retribuir para que a outra pessoa
percebesse que eu existo mesmo, e sou quem digo ser.
e quanto a isto da imagem, foi um pequeno passinho [uma parvoíce
para alguns, bem sei] mas é sinal que quero dar passos em frente.
O próximo passo será vencer o medo terrível que tenho de subir a
uma balança em público [salvo seja]. Se as pessoas soubessem as birras que faço
nos consultórios médicos para escapar a esta tortura psicológica. Quase faço
chantagem para não ser submetida a esta avaliação. é horrível. Como se aquele aparelho
tivesse sido feito para me humilhar. Adoro saber quando a balança está
avariada. é parvo? é, mas tenho dificuldade em ultrapassar, mesmo sabendo que
aquele número que lá consta possa ser motivo de orgulho e não de humilhação…
Um dia de cada vez. e cada um com o seu parafuso desapertado.