domingo, 2 de dezembro de 2018

E tu, quem és afinal?

Sabem aquelas folhas de acetato para verificar testes de resposta múltipla? Não sei se ainda é isso que usam os professores, mas lembro-me que, era deste modo, que se corrigiam os testes teóricos quando tirávamos a carta de condução. Era assim que o faziam muito depressa. Já lá vão muitos anos, ainda a internet estava a nascer...

Às vezes também me questiono se há  umas folhas destas, imaginárias, para ver onde se encaixam as pessoas que conhecemos. Para saber se têm "algum parafuso" a menos. O que é isso do "parafuso a menos"? O que é a norma? Pode a loucura ser confundida com criatividade? O "pensar fora da caixa" é vanguardismo, inovação? Ou, por outro lado, será delírio mental?
Porque nos destacamos como mentalmente sãos e aos outros, os que fazem coisas estranhas, denominamos "os loucos", os que "não são bons da cabeça"?



A empresa admitiu um estagiário. Cedo verifiquei que era um rapaz com um comportamento a que estava pouco familiarizada. Eu e os demais. 
Uma das minhas colegas sabe a minha tendência a proteger os recém-chegados. Ela avisou-me para ter cuidado porque não gostaria de ver-me envolvida numa situação que denotava a cada dia ser "mais especial" . Ela tem a frieza de se distanciar. Eu não. Nunca tive. Desde criança que tenho este magnetismo pelas causas diferentes.
Pelo aviso dela, retraí-me. Quase sempre acabo sozinha contra a maioria,  a defender os mais fracos ou os menos compreendidos. Os outros, a maioria, analisam e desprezam ou tornam-se indiferentes, preferindo ignorar a situação. Coloquei-me mais longe do que o costume mas, sem assim, deixar de estar perto.
Dei conta do comportamento letárgico deste meu recente vizinho de secretária,  ao longo do mês de Novembro. Caía facilmente no sono, por intermináveis horas. Cheguei a  convidá-lo a ir tomar café, não querendo apontar-lhe que o apanhara a dormir.
Caminha com passos "secos", os pés batem no chão como se fossem macetas a martelar uma superfície dura. Os ombros e as costas vergam como se estivesse a ser comprimido por um abraço invisível muito apertado. Quase caminha como se estivesse enrolado em si mesmo. 
Percebi há muito que vai almoçar mais cedo para não se sentir tão desconfortável. Percebi que lhe é mais fácil receber os outros no refeitório do que a chegar  e já lá estarem todos.
Percebi a sua parca cultura geral, o seu interesse por assuntos menos usuais. Li-lhe a admiração quando lhe explicamos porque se diz "bife com ovo a cavalo". Parece nunca ter ouvido falar na expressão. Ou que não temos bacalhau no Oceano Atlântico. Quem vem habitualmente do mar da Noruega.
Há muito que lhe diagnostiquei, no meu acetato imaginário, uma doença a que chamam autismo. Preocupei-me por si, pela reacção dos outros, pela catalogação que os outros logo se prestam a fazer, que eu já conheço, pelas consequências. 
Limitei, o mais que pude, os relatos jocosos  de umas colegas, para não ouvir o riso de outras, para evitar avaliações redutoras, para evitar chegar a quem eu não queria, por temer consequências na vida de quem é avaliado pelo nome da doença que tem e não pelas suas capacidades; porém, foi inevitável ouvir o primeiro passo para o precipício: esse gajo é maluco, não bate bem da bola.

Esta semana veio a confirmação da sua  professora coordenadora do mestrado, quando lhe foi dito que ele adormecia. O estado de ansiedade de estar a viver uma coisa nova ou uma nova medicação, podem estar a tirar-lhe o sono, explicou ela. 
Ele ficou  3 dias a descansar, aconselhado pelo médico.
Para as minhas colegas, ele "não bate bem da cabeca", tem "muitos parafusos a menos", é um "totó"... 
Para mim, é só uma pessoa que tem uma doença com nome, que assusta muita gente. Porque se não tivesse sido classificada, talvez não causasse repercussões tão drásticas na vida de quem as tem e tanto desdém de quem julga que não as tem. 
Ser diferente já é difícil. Não ter direito a oportunidades iguais é ainda pior. Talvez fosse mais fácil não haver nome para as doenças. Esta, soubemos, tem o nome do homem que a "catalogou". É uma síndrome mais leve de autismo. Mas o nome existe, tem sintomas, está catalogado. Foge daquele acetato imaginário que as pessoas têm para avaliar se o SEU grau de normalidade é verificado.
 Quanto a mim, afinal a colega tinha razão. Não saí ilesa deste envolvimento. Nunca senti tanta vergonha de trabalhar na empresa onde estou, quando ouvi dizer: livrem-se dele, não quero cá malucos...
Há coisas que me tocam demasiado para eu simplesmente ignorar. Talvez eu também seja diferente; maluca dirão os outros certamente. Estúpidos e ignorantes, chamar-lhes-ei eu.